18 fevereiro 2013

A Ditadura Civil-Militar e a "politicalha interiorana"


Lançado no final de 2012, o livro “A Ditadura Civil-Militar e a ´politicalha interiorana’: o caso Halim Maaraoui em Nova Londrina-PR (1969)” vem atingindo boa repercussão tanto perante o público acadêmico, quanto o leitor comum, interessado em conhecer a história do Brasil e a do Paraná, em especial nos anos da Ditadura. Abaixo, prefácio escrito pelo professor doutor Reginaldo Dias, do departamento de História da UEM.
O livro pode ser adquirido diretamente com o autor, na Papelaria Papel e Cia, em Nova Londrina ou no site da Editora CRV

Prefácio

Cassio Augusto Guilherme, por intermédio de sua bem-sucedida pesquisa de mestrado, agora convertida ao formato de livro, trouxe importante e singular contribuição aos debates sobre a ditadura civil-militar brasileira.
No título da dissertação de mestrado, o leitor é informado que a pesquisa investigou o processo de cassação do prefeito de Nova Londrina, município do Noroeste do Paraná, em 1969. De fato, com apenas três meses de exercício de mandato, o prefeito Halim Maaraoui, acusado de ser subversivo, teve seu mandato cassado.
Uma inferência apressada poderia levar à conclusão de que a contribuição apresentada por Cássio Augusto Guilherme foi promover o deslocamento do debate sobre a ditadura civil-militar dos grandes centros urbanos para a realidade das pequenas cidades do interior do país.
Se fosse apenas isso, a contribuição já seria bastante apreciável, visto que o  foco privilegiado nos principais centros do Brasil nem sempre permite entender as dinâmicas políticas em um país extenso e, sobretudo, complexo como o nosso. O pesquisador, no entanto, foi muito além.
Por intermédio de uma análise da história do referido município, demonstra como a ruptura promovida em 1964 e o novo ambiente institucional do país entrelaçaram-se  com as dinâmicas das elites regionais e com a disputa pela conquista ou preservação do poder local. Mais significativo ainda é o fato de desvelar como essas disputas incidiram no processo eleitoral. Embora o Brasil vivesse sob o tacão de uma ditadura, os detentores do poder procuraram erigir instituições que pudessem alimentar a imagem de que o país se encontrava sob relativa normalidade democrática.
No início, efetuada a “operação limpeza” patrocinada pelo primeiro Ato Institucional, não houve modificação do sistema partidário e interrupção das eleições municipais de 1964 e do pleito para governo de estado do ano seguinte. Passada a eleição aos governos estaduais é que foram extintas as antigas legendas e implantado o novo sistema partidário. Houve, então, abolição das eleições diretas para presidente e governadores, mas foram preservadas as eleições para prefeito (com exceção das capitais e dos municípios das chamadas áreas de segurança nacional), vereadores, deputados estaduais e federais e senadores.
Nos municípios do interior, malgrado o rígido ambiente institucional, há registros de disputas muito acirradas, que movimentavam eleitos e eleitores.  A pesquisa divulgada por este livro demonstra como a ideologia da segurança nacional e o aparato repressivo relacionavam-se com essas frestas de participação política, sobretudo quando o resultado das urnas ensejava deslocamentos no poder local.
Cássio Augusto Guilherme, por meio de hábil análise, sustentada por acurada pesquisa documental e bibliográfica, amplia as fronteiras da pesquisa sobre o período da ditadura civil militar, não apenas por focalizar outros territórios geográficos, mas por inserir temas e problemáticas ainda subestimados ou pouco explorados pela literatura acadêmica.     
Acompanhei a pesquisa de Cássio Augusto Guilherme em suas diversas etapas. Já conhecia seu potencial antes de seu ingresso no programa de Pós-Graduação em História da UEM, visto que ele, mesmo sendo discente de outra instituição, freqüentava as atividades do nosso Laboratório de Estudos do Tempo Presente. Ao compor a banca de avaliação, foi uma satisfação ver que esse potencial foi traduzido em uma sólida dissertação de mestrado. Mais recentemente, foi uma alegria verificar que seu trabalho de pós-graduação, agora editado no formato de livro, tem condições de atingir um público ledor mais amplo e fomentar o debate sobre temas tão importantes.

Reginaldo Benedito Dias - Dep. de História da UEM.



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