07 junho 2011

Formação ou deformação docente?



Uma pesquisa empreendida numa universidade paulista revelou que os estudantes de Letras e Pedagogia, quando terminam seus cursos, não dispõem de um acervo pessoal com as obras fundamentais de suas áreas de estudo. Não bastasse a precariedade dos cursos, ou decerto por isso mesmo, os estudantes se formam (se é que se formam) praticamente sem saber os principais conceitos da área e, pior, desprovidos de qualquer recurso bibliográfico aos quais possam consultar em momentos de dúvida.

Os estudantes de Letras, por exemplo, não têm em casa uma única gramática tradicional e, quando têm, é alguma edição antiga, dos anos 1960, de quando os pais estudaram os poucos mais que estudaram, já que a retumbante maioria desses estudantes, vêm de famílias com baixa escolaridade e até com escolaridade nenhuma. Não se importam em comprar o telefone celular mais sofisticado, mas quando se trata de comprar livros, fazem sempre um pequeno escândalo que são muito caros (e são mesmo!). O que for possível xerocar, mesmo sendo obra disponível no mercado, é xerocado (um verbo que soa tão feio e que remete mesmo à obscenidade do que significa). O que for possível copiar e colar da internet é copiado e colado e entregue como trabalho final de disciplina. E aceito alegremente por muitos professores.

É verdade que 70% dos estudantes de Letras só estão na universidade para conseguir um diploma superior e tentar outra coisa depois (em Brasília, paraíso do funcionalismo público, o sonho dourado é sempre passar num concurso). Não admira, sendo a educação brasileira o que é: uma tragédia ecológica pior do que as queimadas da Amazônia. O mais trágico é que se forma com tudo isso um círculo vicioso e viciado: estudantes vindos de uma escola pública péssima entram em cursos universitários péssimos e recebem uma formação que é mais uma deformação que qualquer outra coisa. Saem diplomados, não conseguem lugar no mercado de trabalho, porque não têm formação suficiente, e vão tentar a sorte no magistério, último reduto de quem não consegue coisa melhor na vida. E lá vão essas pessoas ensinar (o quê?) aos alunos da rede pública, que já é uma rede mais do que rasgada e furada, por onde os peixes escapam, felizes da vida.

Enquanto nada for feito para dignificar a profissão docente, e enquanto os cursos de Pedagogia e Letras não forem implodidos para em seu lugar surgirem verdadeiras escolas de formação docente, vamos continuar sendo uma das dez maiores economias do mundo e o 85º país em qualidade educacional.

Por Marcos Bagno – lingüista – Revista Caros Amigos de Abril de 2011.

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