06 maio 2011

Miséria S.A.

Maringá e sua elite provinciana gabam-se por terem uma “cidade planejada”, com muitos bosques, árvores, qualidade de vida e etc. Só que essa mesma elite provinciana costuma fechar os olhos para os seus problemas sociais.

Todos os dias, na minha caminhada até a UEM, pelas ruas da zona 07, além das calçadas mal-conservadas e lixo pelas mesmas, uma cena que se repete diariamente tem me chamado a atenção e me feito refletir. Sempre vejo um idoso revirando as latas de lixo. Diante da repetição, passei a reparar em seus rostos e não trata-se da mesma pessoa, ou seja, há muitos nessa situação.

Hoje mesmo, quando passei, pude reparar que o idoso em questão pegava um pedaço de pão do lixo. Fiquei com receio de confirmar se este pão iria para o estômago e não mais olhei.

Fico pensando como a vida levou estes idosos, e há mulheres entre eles, para chegarem a essa situação. Provavelmente são pessoas que passaram a vida no trabalho pesado, diário, na roça ou construção civil, mas que hoje a nossa sociedade não lhes dá mais valor. Deprimente.

O que mais me revolta é que, diante de cenas urbanas como esta, a maioria das pessoas sequer se sentem incomodadas ou param para refletir. Estão mais preocupadas com o casamento do príncipe Willian, o resultado do futebol ou a cervejada do final de semana.

Já ouviram falar do “O Mito da Caverna” de Platão? Então, ainda estamos vivendo de sombras, e não queremos encarar a luz da realidade. Nos fechamos em nosso mundinho de faz de conta. O genial Maurício de Souza, em um gibi do Piteco, fez a crítica ao mito moderno.
Por falar nisso, há um livro fantástico que se chama O Papalagui. Trata-se da visão de um indígena sobre a vida na Europa. Em certa altura ele diz literalmente que: “Entregar-se a vida de mentira tornou-se uma verdadeira paixão para o Papalagui. Tão grande, às vezes, que o faz esquecer de sua vida de verdade. Muitos, quando saem do lugar onde a vida é de mentira, já não podem distingui-la da vida de verdade e enlouquecem.” Vale a reflexão.

Por fim, o grande Manuel Bandeira nos permite a mesma reflexão em seu poema “O Bicho”:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Precisamos sair do mundo e “faz de conta” e resgatar o sentido de solidariedade da vida em comunidade. O capitalismo tem nos forçado cada dia mais à uma “Ética da individualidade”. Precisamos de uma “Ética da responsabilidade”. Pense nisso.

Por: Cássio Augusto – professor e mestrando em História.

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