03 fevereiro 2011

Para entender o Egito ou o que a TV não fala:

Quando se fala em Egito, a primeira lembrança que vem à mente da maioria das pessoas são as pirâmides, Cleópatra, o Farol de Alexandria, ou as belas imagens do filme A Múmia. Por uma deficiência escolar, muita gente ainda acha que no Egito ainda sobrevive aquela gloriosa civilização dos Faraós, etc. Ledo engano.

A Civilização egípcia foi dominada pelos romanos, bizantinos e por fim, pelos Árabes, que converteram a população ao islamismo. Como todo norte do continente africano, o povo Egito hoje pode ser considerado Árabe, com língua, cultura e religião em comum. Também no processo de Imperialismo Europeu, a região foi dominada por Napoleão Bonaparte e mais tarde pelos Ingleses. A Independência vem apenas em 1922.

A principal riqueza do Egito é o Canal de Suez. Construído em 1869 tinha a sua propriedade dividida entre franceses e egípcios, mas posteriormente, a parte que cabia aos egípcios no Canal foi “adquirida” pelos ingleses. O Canal de Suez é a ligação marítima entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho e Oceano Índico. Em outras palavras, embarcações européias com destino à Ásia não precisam mais contornar o continente africano. Um economia e tanto e um local estratégico para os interesses comerciais da Europa.

Quando da desastrosa criação do Estado de Israel pela ONU, o Egito, país de influência Árabe que era, protestou e entrou em conflito com os israelenses, mas acabou derrotado. A população se revoltou com a monarquia submissa aos interesses imperialistas da época e uma revolução instalou a República nacionalista no país em 1952.

O problema é que, em 1953 o Egito nacionaliza o Canal de Suez, ou seja, agora o Canal que passa dentro do Egito deixou de ser Francês/Ingleses e passou a ser egípcio. Justo! É claro que os interesses capitalistas não gostaram nada da nacionalização do Canal que lhes proporcionava incontáveis lucros. Em reação, o Estado de Israel, com apoio da França e Inglaterra atacam o Egito. Por sua vez, o presidente do Egito, no contexto de Guerra Fria (EUA x URSS) busca apoio dos soviéticos e é prontamente atendido.

Em 1967, na chamada Guerra dos Seis Dias, o Egito perder partes estratégicas de seu território para Israel, como a Península do Sinai e a Faixa de Gaza. Apenas em 1978/79, com mediação dos EUA, os dois países, Egito e Israel assinam um acordo de paz e o Sinai é devolvido ao povo egípcio.

Como você pode perceber, desde o início do século XX o Egito vem sendo região estratégica para os interesses Imperialistas no Oriente Médio. Tanto pelo Canal de Suez como pelas fronteiras com Israel, o país é peça importante no xadrez diplomático da região. Em 1981, o presidente é assassinado por fundamentalistas islâmicos, que era contrários à aproximação com o Estado de Israel. No lugar, assume o general Hosni Mubarak.

Mubarak reprime os grupos fundamentalistas islâmicos e promove uma aproximação com o ocidente (leia-se: torna-se subserviente aos interesses Imperialistas). Pior que isso, Mubarak aproxima o Egito à Israel, reconhecendo a existência do país e suas fronteiras. Para o mundo Árabe, trata-se de uma afronta, já para o mundo Ocidental, o Egito torna-se mais um importante aliado dos EUA na região. Durante todo o seu governo, Mubarak reprimiu na base da violência a toda manifestação contra o seu governo. No país há milhares de presos políticos, torturados, mortos.

Pois bem, agora você já pode entender um pouco melhor o que está vendo na TV. Infelizmente, a TV não contextualiza historicamente os fatos. Fica-nos sempre a impressão de os acontecimentos são naturais, etc. Não são. Há uma raiz em tudo isso e a TV tem feito grande esforço em não nos contar a verdade. De forma simplificada, o que se passa no Egito é:

A ditadura de 30 anos de Hosni Mubarack, apoiada pelos EUA (aqueles que se dizem defensores da democracia, liberdade, etc) está ruindo. Os EUA temem pelo futuro do Egito não porque estão preocupados com o bem-estar da população, mas sim, com a possibilidade real de uma Revolução Islâmica tomar o poder e instalar no país um governo nacionalista, ou seja, um governo que não fique subserviente aos interesses capitalistas Imperialistas na região; um governo que mantenha um maior controle sobre o Canal de Suez; um governo que apóie a causa Palestina. Em suma, um possível futuro governo que não atenda mais os interesses dos EUA, mas sim os interesses do povo egípcio.
A esperança do Ocidente (leia-se, EUA) era de que a declaração de Mubarack de que não concorreria à reeleição em setembro acalmasse as coisas (claro que ele só fez isso para ganhar tempo e se rearticular, mas enfim...). Não deu certo simplesmente porque a revolta do povo egípcio não é apenas contra Mubarack, muito menos a principal reivindicação são eleições democráticas, até porque Mubarack é sempre reeleito em todas elas. Como diz o ditado popular, “o buraco é mais em baixo” e não como a mídia tenta nos convencer, de que trata-se de uma Revolução pela Democracia. É muito mais que isso!

Outro dia vi a Globo dizer que a revolta começou porque a população usou bastante internet e celulares, se comunicando com o mundo exterior e isso criou neles um sentimento de revolta interna. Cômico! A mesma Globo que persegue a liberdade da internet, tenta nos fazer crer que agora a internet é revolucionária, principalmente em um país onde mais da metade da população vive com menos de US$ 2,00 por dia e nem imagina o que seja uma internet ou um celular.

Por fim, não há no Egito uma oposição. A revolta não tem líder. No entanto, a TV tenta nos convencer que Mohamed ElBaradei, prêmio Nobel da Paz (grandes coisa isso, até o Obama é Nobel da Paz!) seja a voz a comandar os revoltosos. Mentira! A revolta veio de baixo para cima, das classes subalternas, dos pobres e explorados. Eles foram para as ruas reivindicar melhores condições de vida, saúde, trabalho, educação, enfim, democracia plena, mas isso não pode ser dito, senão vai que os pobres de todos os outros país resolvam seguir o exemplo e fazer a mesma coisa né...

Por: Cássio Augusto – professor e mestrando em História UEM.

1 Comentários:

Às 11/2/11 10:20 PM , Blogger Pamella B. disse...

Ótimo, ótimo texto! Falou tudo. Eu estava meio perdida ainda nessa "guerra", mas agora tudo ficou claro. Sua explicação foi muito boa :D. Em destaque para o trecho final, realmente a TV tem que medir o que fala porque se uma explosão de revolta dessas em um lugar como o Brasil, só tem uma solução e nós já sabemos qual é...

 

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