19 setembro 2009

O que a mídia não contou sobre o caso Cesare Battisti:

“A Itália mente. O governo italiano está mentindo. A mídia italiana, em sua maioria pertence ao Berlusconi. Pessoas estão manipulando, ou estão deixando manipular. Nunca fui ouvido pela Justiça italiana sobre esses quatro homicídios. Nunca. Não existe.” (Cesare Battisti)

Para aqueles que minimamente acompanharam o noticiário televisivo, já devem ter ouvido falar na “polêmica” causada quando o Ministro brasileiro da Justiça, Tarso Genro, que concedeu asilo político ao italiano Cesare Battisti, condenado em seu país pelo homicídio de quatro pessoas. Agora o STF quer extraditá-lo.

A questão toda gira em torno de se considerar Battisti como “criminoso político” e não como “criminoso comum”. A diferença? Crime político é mais ou menos o que os militantes pela democracia brasileira fizeram durante a Ditadura Militar, ou seja, crimes contra um regime não-democrático. Crime comum é o que o sujeito comete no dia-a-dia em um Estado Democrático de Direito.

A Rede Globo e a Revista Veja, por exemplo, acusaram o governo brasileiro de estar dando guarida à um “terrorista comunista”, que em uma “Itália democrática dos anos 1970”, teria cometido assassinatos em nome na “Revolução Comunista”. Quem faz estas afirmações não conhece a história, ou se a conhece, mente.

Engana-se quem pensa que o fascismo italiano morreu com o fim da Segunda Guerra e a derrota de Mussolini, para piorar as coisas, havia a atuação dos mafiosos da Casanostra e da Camorra, que tornavam a Itália uma panela de pressão prestes a explodir.

Após os históricos movimentos de maio de 1968, a Itália sofre o seu primeiro atentado fascista. Uma bomba explode no Banco Nacional da Agricultura, matando 16 pessoas e ferindo quase uma centena. As suspeitas recaem sobre grupos anarquistas. Apenas três anos depois os culpados são descobertos: três fascistas fundadores da “Ordem Nova”, posteriormente chamada de “Ordem Negra”.

No mesmo ano de 1968, os fascistas tentam seqüestrar um avião. Em 1973 matam um policial em Milão. Naquele mesmo ano, uma manifestação contra o fascismo na cidade de Brescia acaba em tragédia: uma bomba colocada pela “Ordem Negra” mata 8 pessoas. Mais 12 pessoas morrem na explosão de um trem que vai de Roma até Viena.

É caro leitor, pelo visto, naquela época, a democracia italiana não era tão tranqüila como a nossa mídia tenta nos fazer crer.

O sistema de governo na Itália era o parlamentarista, ou seja, votava-se nos deputados e estes é que escolhiam quem seria o Primeiro-Ministro. Neste sistema é importante que um partido faça a maioria absoluta no congresso, caso contrário, dependerá de uma aliança programática com outros partidos para poder eleger o seu Primeiro-Ministro, ou Chefe de Governo. Pois bem, desde a implantação do sistema republicano na Itália, é a Democracia-Cristã (DC) o principal partido político. O segundo maior partido era o Partido Comunista Italiano (PCI), no entanto, a DC recusava-se a aceitar a participação do PCI no governo, o que gerava grande instabilidade política. Por exemplo, nos primeiros 30 anos da República, há 36 gabinetes, todos eles dependendo de frágeis coalizões da DC com partidos menores.

Pois bem, a desordem não vinha apenas dos fascistas. Montou-se uma forte aliança entre a Máfia, a Maçonaria, o governo da DC e o Vaticano para financiar estas operações, inclusive fazia parte da tática o financiamento à imprensa, afinal, a propaganda é a alma do negócio. Mas por que tudo isso?

No início da década de 1970, a recessão econômica e a crise financeira do Estado fazem com que o PCI conquiste cada vez mais eleitores. Nas eleições gerais de 1976, o PCI conquista 228 cadeiras, contra 263 da DC. Para conseguir governar, a DC é obrigada a formar um governo minoritário, de coalizão frágil.

O avanço do PCI incomodava. Formou-se a “Operação Gládio”, com apoio do serviço secreto italiano, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a loja maçônica P2. O objetivo era promover atentados contra as instituições democráticas, e claro, colocar a culpa nos comunistas. Uma excelente desculpa para um golpe de estado à Direita. Até parece que eles inspiraram-se na história do Brasil e do golpe civil-militar de 1964. Entre as pessoas que apoiavam esta operação, estavam generais, empresários, religiosos, jornalistas, políticos e até o atual comandando italiano, Silvio Berlusconi.

Em 1978, Enrico Berlinguer, líder do PCI, sugere à DC uma pacto pela divisão do poder na Itália, uma coalizão de ambos em prol do país, o que chamou de “Compromisso Histórico”.

Diante desta situação, a extrema esquerda reagiu com assaltos a bancos, para financiar as operações e seqüestros de direitistas para levantar informações. Haviam várias organizações de esquerda. A maior era a Brigada Vermelha, que inclusive seqüestrou e assassinou o ex-Primeiro Ministro Aldo Moro, da DC. Cesare Battisti fazia parte de um grupo menor, o PAC, Proletários Armados pelo Comunismo.

Os Brigadistas cometeram o erro fatal de matar Aldo Moro. Além da comoção nacional que este ato brutal causou, é o estopim para o endurecimento do regime, justamente o que os fascistas queriam. Os militantes da extrema esquerda caíram na armadilha.

A Justiça endureceu. Bastava uma autorização verbal de qualquer juiz para se grampear telefones e suspeitos poderiam ser detidos por vinte e quatro horas, simplesmente por serem suspeitos. O que faziam com eles neste período? Advinha!

Em 1979, Battisti foi preso e condenado a 12 anos e meio de prisão. O motivo da condenação? Fazer parte do PAC. Em 1981, Battisti consegue fugir da prisão e no ano seguinte estava no México e depois na França, agora sob o refúgio político do governo Mitterrand.

Repare bem, Battisti já tinha uma condenação, mas a Itália cria a “Lei dos Arrependidos”, que dava grandes vantagens aos presos que “colaborassem” com a justiça. Aqui aparece a figura de Pìetro Mutti, que após várias sessões de tortura, passa a “colaborar” com a Justiça.

Mutti havia sido condenado pelo assassinato de quatro pessoas ligadas à direita fascista. E não é que Battisti, de um dia para o outro, tornou-se co-autor de todos estas crimes? Como Battisti estava exilado na França, a justiça italiana nomeia novos advogados para defendê-lo, claro que com procurações falsas e ao fim do processo, Battisti é condenado à prisão perpétua.

Enfim, esta parte da história a Globo e a Veja não mostram, seja porque não têm interesse, seja porque é característica principal de tais veículos de comunicação a fragmentação da notícia, onde deixa de ser informação para transformar-se em formação.

“Battisti não pegou em armas contra um Estado tão democrático assim, como dizem aqueles que o querem entregar a outro Estado não tão democrático assim, a Itália do fascista Berlusconi – persegue ciganos e sua última fascistice é querer que médicos denunciem pacientes estrangeiros ‘ilegais’”. (Mylton Severiano).

4 Comentários:

Às 20/9/09 5:12 PM , Blogger Eduardo Braga disse...

Parabéns Cássio,

Nem os críticos e nenhum dos defensores de Battisti até hoje conseguiram explicar tão bem a Itália daquela época.

 
Às 20/9/09 10:12 PM , Blogger Mateus disse...

Assim é o jogo desta imprensa “que vem até nós com vestes de ovelhas quando na verdade são lobos devoradores". Minhas criancinhas, desconfiem da verdade absoluta, Questionem tudo o que a imprensa joga dentro de nossas casas. Desconfiem daquilo que ela sataniza, mas também, desconfiem de tudo o que ela santifica, esta imprensa que se mostra íntegra joga de encontro interesses de uma classe, e é óbvio que não é a classe dominada. Acautelai-vos, "nem tudo o que reluz é ouro”.

 
Às 21/9/09 9:24 AM , Anonymous Arthurius Maximus disse...

Olá Cássio!

Sou contra o asilo de Battisti. Não precisamos de criminosos estrangeiros aqui (mais um). Político ou não, ele é problema da Itália. Além disso, não só os italianos "o perseguem", o parlamento europeu, a corte européia de direitos humanos, a justiça francesa e um monte de organizações internacionais o cassam no mundo. Somente nós estaremos certos?

Todos os organismos que defendem os direitos humanos na europa e até o comissariado da ONU se vendeu para a Itália?

Terrorista é terrorista, seja de esquerda, de direita ou de lado. Cada país que cuide dos seus.

 
Às 21/9/09 11:39 AM , Anonymous PROF ROBERTO disse...

Entendo que sempre há um interesse pela questão abordada, tudo depende de quem está no governo. Hoje, temos um gov à esquerda, vemos a preocupação em defender; se fosse gov à direita, será que a visão seria a mesma?

 

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