16 dezembro 2008

Eles não usam Black-Tie

“É melhor passar fome entre os amigos, do que passar fome entre estranhos.”

Há alguns clássicos da literatura que não de leitura obrigatória, cito apenas dois como Dom Camurro e Crime e Castigo. Há também clássicos do cinema mundial que são obrigatórios, como Tempos Modernos e Casablanca. No entanto, há também clássicos do cinema brasileiro que devem ser vistos pelo menos uma vez na vida. Dentre eles cito O Pagador de Promessas e Eles Não Usam Black-Tie.

Filme que é uma adaptação da peça teatral de Gianfrancesco Guarnieri, escrita duas décadas antes, que explora com grande maestria as dificuldades para organizar a classe trabalhadora brasileira em finais dos anos 1970 e início dos 1980. Não pretendo resumir aqui o filme, afinal, não quero estragar o prazer daqueles que ainda não o viram.

Lançado no ano de 1981, o filme contou com grande sucesso de público, crítica e recebeu várias premiações, inclusive o prêmio máximo do festival de cinema de Veneza naquele ano. As atuações de Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri e Bete Mendes abrilhantam o filme e a trilha sonora é assinada por ninguém menos que Adoniran Barbosa.

Apenas para instigar um pouco o debate, no filme podemos ver claramente duas posições ideológicas, a do Pai que é atuante do movimento operário e a do Filho que, apesar de ser metalúrgico, quer mais é “se dar bem na vida” de maneira fácil, dedurando companheiros e furando a greve. É a esperança de soluções coletivas contra a busca de soluções individuais. A consciência de classe é presente no filme todo.

As condições de miséria a que vive a classe trabalhadora é bem retratada no filme. O bairro operário é paupérrimo, a comida sempre escassa, casa pequena, inacabada, filho dormindo no sofá da sala, o boteco da esquina, a violência armada dos jovens em busca da sobrevivência e etc, Além disso, a violenta repressão policial, seja contra jovens, mulheres ou trabalhadores, muitas mortes. A forma de atuar dos patrões, com demissões e cooptações no seio do operariado também podem ser observadas no filme.

Após o velório de um companheiro morto pela repressão policial, o Pai (Guarnieri) e a Mãe (Montenegro) aparecem calados na mesa de sua casa, tempo se passa em silêncio, apenas com a trilha sonora ao fundo. Então, a Mãe espalha alguns feijões na mesa e os começa a escolher, com a ajuda do Pai, enquanto lágrimas correm de seus rostos. Um ato simples de separar os feijões bons dos ruins, mas que é carregado de um simbolismo fantástico.

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