02 dezembro 2008

Desterritorialização:

“A globalização tende a desenraizar as coisas, as gentes e as idéias” - Octavio Ianni
Em seu trabalho “A Sociedade Global”, o já falecido sociólogo brasileiro Octavio Ianni, aborda no quinto capítulo de sua obra o que ele chama de Desterritorialização. Ao longo das poucas páginas dedicadas ao assunto, Ianni apresenta de forma clara, objetiva e de agradável leitura, como a globalização atua na desenraização do capital, da política e da cultura, um momento essencial da pós-modernidade.

O primeiro aspecto apontado por Ianni é que a desterritorialização coloca em xeque a noção até então conhecida de Estado-Nação, que com a financeirização, fica refém do capital especulativo e suas operações eletrônicas em busca de maiores lucros onde se oferecem menores barreiras tarifárias e maiores taxas de juros. Além disso, a cada dia, as grandes corporações assumem papéis importantes na decisão dos rumos tanto das políticas econômicas quanto sociais do Estado-Nação.

Nas palavras de Ianni:
Formam-se estruturas de poder econômico, político, social e cultural internacionais, mundiais ou globais descentradas, sem qualquer localização nítida neste ou naquele lugar, região ou nação. Estão presentes em muitos lugares, nações, continentes, parecendo flutuar por sobre Estados e fronteiras, moedas e línguas, grupos e classe, movimentos sociais e políticos. (pg.93)
Por exemplo: Foi-se o tempo em que existiam multinacionais e que era fácil saber de onde vinha o seu capital e para onde iam os seus lucros. Hoje, com a crescente venda de ações das empresas nas Bolsas de Valores, uma empresa possui como “dono” pessoas do mundo inteiro.

Além disso, outra conseqüência da globalização é a terceirização do processo produtivo, em especial rumo aos países de terceiro mundo, com legislação trabalhista frágil, um grande exército de reserva e óbvia precarização das relações de trabalho/produção. É comum que grandes empresas mantenham em seus países se origem tão somente escritórios, enquanto produzem seus produtos em galpões de Bangladesh, Indonésia, etc, a um preço ínfimo de semi-escravidão, mas vendem seus produtos em todo o mundo ao preço que a marca exige. Isso acontece principalmente com o setor de vestuário.

Ianni aponta ainda para a atuação da globalização no terrenos das ciências sociais e na formação do que ele chama de “multinacionais da sociologia, economia, ciência política, antropologia, história, geografia, psicologia, psicanálise, lingüística, educação e outras ciências” (pg.94). Percebendo a importância de atuar também no campo ideológico, o capital investe cada vez mais na universidade com patrocínios pomposos para a pesquisa de extensão também no campo das ciências biológicas e de produção.

Esta atuação do capital junto à universidade e à pesquisa, cria “intelectuais orgânicos” a seu serviço. Mas o que mais preocupa Ianni e que acaba por gerar/acentuar a ocidentalização do pensamento social. Diversos estudos comparativos servem para disseminar valores, padrões, idéias, formas de pensar e trabalhar predominantes no ocidente. Aliado à expansão dos grandes veículos de comunicação, isso dissolve as culturas locais, bem como os vínculos de lealdade e identidade dos pequenos grupos sociais ou mesmo dos Estado-Nação atingidos.

A conseqüência deste conjunto de acontecimentos com vistas apenas à reprodução/acumulação de capital é catastrófica. Nas palavras de Ianni:
O processo de desterritorialização tem acentuado e generalizado as condições de solidão. Indivíduos, famílias, grupos, classes e outros segmentos sociais perdem-se no desconcerto do mundo. (...) são continuamente bombardeados por mensagens, recados e interpretações distantes, díspares, alheias. (...) Desenvolvem-se as condições de alienação e, em conseqüência, acentuam-se as de solidão. (pg.100)
Enfim, de forma resumida e com o único propósito de apenas apresentar e instigar a leitura da obra de Octavio Ianni, temo como consideração final a sua conclusão de que “a sociedade global desterritorializa quase tudo o que encontra pela frente. E o que se mantém territorializado já não é mais a mesmo coisa” (pg.103/104). Ou seja, produz um fetichismo exacerbado em pró da nova ordem pós-moderna onde tudo é “isento de tensão e aura do real” (pg.105).

IANNI, Octávio. A Sociedade Global. [S.l.]. Ed. Civilização Brasileira: 1993.

3 Comentários:

Às 2/12/08 10:44 PM , Blogger Mauro Sérgio disse...

O piro é que essa migração das grandes empresas para os países de terceiro ainda é comemorada pela imprensa, pelas elites econômicas e pelos governos destes países.

No final, essas empresas ainda fazem chantagem com os trabalhadores acenando com a perda do emprego para os que não aceitarem a retirada de direitos.

 
Às 3/12/08 10:14 PM , Anonymous Catatau disse...

Muito bom esse post!

Fiquei pensando nessa noção de desterritorialização, de onde o autor tira? Pois ela é muito semelhante, e poderia servir de suporte, à noção de desterritorialização de Felix Guattari, conhece?

 
Às 2/2/11 11:58 AM , Blogger Daniel Ferraz disse...

Parabens!

Vou ler o livro!

 

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