23 dezembro 2008

FELIZ NATAL!



Perfeição
Renato Russo


Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...

20 dezembro 2008

Montadoras: que crise é esta?

Acompanhamos nos noticiários a crise das montadoras. Várias estão suspendendo a produção e dando férias coletivas para os trabalhadores. Outras reduzem custos deixando as competições automobilísticas. No Brasil o Governo reduz os impostos sobre os veículos 0 km para alavancar as vendas. Mas que crise é esta? Infelizmente, na TV, vemos apenas as conseqüências, e o noticiário se limita a dizer que é tudo culpa da crise. No entanto, ninguém explica que crise é esta.

A crise é do modo de produção baseado no consumo. Em outras palavras, a crise é do modo de produção capitalista. Ou seja, o capitalismo se reproduz no consumo (não é a toa o investimento em marketing), e quando o consumo cai, o capitalismo entra em xeque.

Basta um olhar mais atendo às garagens de carros usados e aos pátios das montadoras. Estão superlotados. As fabricantes de automóveis produziram mais carros do que o mundo é capaz de consumir. Chega uma hora que o crescimento atinge níveis tão altos que não há mais para onde crescer. Não há mais mercado consumidor (a imensa maioria da população mundial é pobre!) para abrigar todos estes bens. Aqueles que dispõe dos recursos para ter um carro já o tem, e os que trocam de carro todo ano é a minoria.

Bens de luxo, como os automóveis, não são bens de consumo de primeira necessidade. Em épocas de crise, que atinge principalmente trabalhador médio, entre os bens de consumo cortados de sua lista, a troca do automóvel é um dos primeiros. Embora o capitalismo, devido a todas as suas crises já tenha aprendido a lição, a distribuição maior de renda é ainda a única forma de sobrevivência do consumo e conseqüente reprodução do capital. Embora é concorde com a análise de Mèszáros de que o capitalismo está nos levando para a barbárie. Alguém duvida?

16 dezembro 2008

Eles não usam Black-Tie

“É melhor passar fome entre os amigos, do que passar fome entre estranhos.”

Há alguns clássicos da literatura que não de leitura obrigatória, cito apenas dois como Dom Camurro e Crime e Castigo. Há também clássicos do cinema mundial que são obrigatórios, como Tempos Modernos e Casablanca. No entanto, há também clássicos do cinema brasileiro que devem ser vistos pelo menos uma vez na vida. Dentre eles cito O Pagador de Promessas e Eles Não Usam Black-Tie.

Filme que é uma adaptação da peça teatral de Gianfrancesco Guarnieri, escrita duas décadas antes, que explora com grande maestria as dificuldades para organizar a classe trabalhadora brasileira em finais dos anos 1970 e início dos 1980. Não pretendo resumir aqui o filme, afinal, não quero estragar o prazer daqueles que ainda não o viram.

Lançado no ano de 1981, o filme contou com grande sucesso de público, crítica e recebeu várias premiações, inclusive o prêmio máximo do festival de cinema de Veneza naquele ano. As atuações de Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri e Bete Mendes abrilhantam o filme e a trilha sonora é assinada por ninguém menos que Adoniran Barbosa.

Apenas para instigar um pouco o debate, no filme podemos ver claramente duas posições ideológicas, a do Pai que é atuante do movimento operário e a do Filho que, apesar de ser metalúrgico, quer mais é “se dar bem na vida” de maneira fácil, dedurando companheiros e furando a greve. É a esperança de soluções coletivas contra a busca de soluções individuais. A consciência de classe é presente no filme todo.

As condições de miséria a que vive a classe trabalhadora é bem retratada no filme. O bairro operário é paupérrimo, a comida sempre escassa, casa pequena, inacabada, filho dormindo no sofá da sala, o boteco da esquina, a violência armada dos jovens em busca da sobrevivência e etc, Além disso, a violenta repressão policial, seja contra jovens, mulheres ou trabalhadores, muitas mortes. A forma de atuar dos patrões, com demissões e cooptações no seio do operariado também podem ser observadas no filme.

Após o velório de um companheiro morto pela repressão policial, o Pai (Guarnieri) e a Mãe (Montenegro) aparecem calados na mesa de sua casa, tempo se passa em silêncio, apenas com a trilha sonora ao fundo. Então, a Mãe espalha alguns feijões na mesa e os começa a escolher, com a ajuda do Pai, enquanto lágrimas correm de seus rostos. Um ato simples de separar os feijões bons dos ruins, mas que é carregado de um simbolismo fantástico.

12 dezembro 2008

Allende não foi o primeiro!

O Golpe Militar chileno que depôs e matou o presidente democraticamente eleito Salvador Allende em 1973 no Chile, instigado pela CIA e com ajuda financeira estadunidense não foi a primeira intervenção estrangeira contra o país.

Por volta de 1880, mais da metade das exportações chilenas dependiam do salitre e do iodo explorado por capitalistas ingleses. John Thomas North ligado ao Partido Conservador inglês e a uma loja maçônica, e sua empresa a Liverpool Nitrate Company exploravam quase que de forma monopolista os nitratos chilenos. Enquanto isso: “os operários chilenos não conheciam o descanso dos domingos, trabalhavam até 16 horas por dia e cobravam seus salários com fichas que perdiam cerca da metade de seu valor nos barracões da empresa” (GALEANO, p.185). Além disso, o Chile importava da Inglaterra mais produtos que a Índia, principal colônia inglesa naquele período.

Em 1886 é eleito presidente José Manoel Balmaceda, que tenta promover o desenvolvimento da indústria chilena, rompeu o monopólio britânico das ferrovias e das terras salitreiras. O resultado? John North e outros capitalistas britânicos financiaram uma guerra civil e barcos da marinha inglesa bombardearam a costa chilena, o que levou a deposição do “ditador da pior espécie, carniceiro” José Balmaceda, que derrotado, suicidou-se. Enquanto isso os jornais britânicos anunciavam: “A comunidade britânica não faz segredos de sua satisfação pela queda de Balmaceda, cujo triunfo, se crê, teria implicado sérios prejuízos aos interesses comerciais britânicos” (GALEANO, p.186).

Com o fim da viabilidade econômica do salitre chileno, o país, dependente economicamente deste monopólio exportador só poderia entrar em crise. E a Inglaterra com isso? Nada, isso não era problema mais seu. Pois é, e tem gente que ainda pergunta o porquê de se estudar história.

09 dezembro 2008

Balanço do Brasileirão 2008:


Como este blogueiro é apaixonado por futebol e pelo São Paulo Futebol Clube, não poderia deixar de postar um balanço do Brasileirão 2008, de longe, o campeonato por pontos corridos mais emocionante até agora.

Primeiro preciso destacar a incompetência do Grêmio, Palmeiras, Flamengo e Cruzeiro que se alternaram na liderança durante toda a competição, mas na hora de decidir, na reta final, não souberam aproveitar a vantagem que tiveram. A perda do título por estas equipes se mostrou uma vergonha, ainda mais para o Grêmio que chegou a abrir onze pontos em relação ao São Paulo.

O São Paulo, mais uma vez campeão, assumiu a liderança apenas nas últimas rodadas, e soube ter cabeça e competência para segurá-la. Depois de um primeiro turno inconstante, a arrancada fantástica do segundo turno (só perdeu na primeira rodada para o Grêmio) lhe garantiu o TRI consecutivo. Chega a ser chato repetir isso, mas o HEXA comprova mais uma vez que o São Paulo está um passo a frente dos demais clubes brasileiros em relação a estrutura organizacional, afinal, depois da eliminação traumática da Libertadores, o clube manteve o técnico Muricy Ramalho que foi fundamental na recuperação da equipe.

Frustrante foi a participação do Palmeiras, que de grande favorito quase fica fora da Libertadores, do Internacional que tendo o melhor time no papel não conseguiu engrenar e principalmente do Santos, que sequer conseguiu vaga para a Copa Sul-Americana do ano que vem.

Quanto aos rebaixados, nenhuma surpresa, Ipatinga e Portuguesa eram candidatos sérios, Figueirense fazia parte do bolo de possíveis rebaixados, e o Vasco da Gama, de tanta tradição, há tempos vem contando com jogadores medíocres e administrações idem, sendo seu rebaixamento uma questão de tempo. Triste é que tal ocorreu nas mãos de Roberto Dinamite, grande craque do passado, mas que tem a capacidade de trazer o Vasco de volta ao lugar de destaque merecido.

Para 2009, a série A contará com o retorno do Corinthians, depois de aprender algumas lições com a série B, o clube contará com todo o fanatismo de seu apaixonado torcedor que tentará empurrar a equipe na busca em “descontar” o atraso e o “sarro” dos torcedores adversários.

Enfim, entra ano e sai ano o São Paulo continua sendo a principal equipe do futebol brasileiro, o mais bem administrado, com o melhor treinador, o melhor goleiro, a torcida que mais cresce no Brasil e o clube mais “odiado” e a ser batido no próximo ano. Ah! Mas ainda resta uma denúncia mal explicada de suborno a ser devidamente investigada e caso não haja provas contra ninguém, quem inventou tudo isso deverá ser exemplarmente punido.

06 dezembro 2008

CALA A BOCA, FHC!


Recebi este texto por e-mail esta semana e reproduzo aqui. Originalmente, está no site da Agência Carta Maior. O texto é do brilhante Emir Sader, o qual já tive o privilégio de acompanhar uma conferência em Curitiba/PR.


Quem disse: “ A globalização é o novo Renascimento da humanidade.”


Quem disse: “Quem acabou com a inflação, vai acabar com o desemprego.”


Quem disse: “Esqueçam o que eu escrevi.”


Quem disse: “Vou virar a página do getulismo.”


Quem disse, no último comício de Alckmin, no segundo turno, com a camisa fora da calça, desesperado: “Lula, você acabou, você morreu.”


Quem disse: “O Estado brasileiro gasta muito e gasta mal” e entregou o Estado com a dívida pública 11 vezes maior.Quem disse: “Eu tenho um pé na cozinha” e depois de terminado o mandato, cinicamente acrescentou: “na cozinha francesa”.


Quem quebrou a economia brasileira três vezes e na última, em 1999, subiu a taxa de juros para 49%?Quem reprimiu e tentou criminalizar os movimentos sociais?


Quem fez a Petrobras mudar de nome para Petrobrax, para tentar privatizá-la. Quem vendeu 1/3 das ações da Petrobras nas bolsas de valores de Nova York e de São Paulo? Quem quebrou o monopólio estatal do petróleo no Brasil?


Quem comprou votos de parlamentares para mudar a Constituição e conseguir um segundo mandato?


Quem aumentou como nunca o trabalho precário no Brasil?


Quem entregou o patrimônio público a preço de banana aos grandes capitais privados nacionais e internacionais, depois de sanear empresas públicas com dinheiro do BNDES e financiar essa transferência com juros subsidiados, no maior caso de corrupção da história brasileira.


Quem disse que os trabalhadores brasileiros são preguiçosos?


Quem disse que o Brasil tem vários milhões de pessoas “inimpregáveis”?


Quem sumiu o Brasil na longa recessão a partir de 1999, que só foi superada no governo Lula?


Quem quase liquidou o Mercosul com suas idéias de livre comércio e de prioridade de comércio com os países do norte?


Quem promoveu a mais ampla privatização da educação no Brasil?


Quem fracassou e teve seu governo largamente rejeitado quando seu candidato foi derrotado em 2002?


Quem não conseguiu nem que o candidato do seu partido defendesse seu governo nas eleições de 2006?


Quem é o político atualmente mais rejeitado pelo povo brasileiro, como tendo sido o presidente dos ricos?


Quem tinha o apoio de 18% dos brasileiros a esta altura do mandato, quando Lula tem 80% de apoio e 8% de rejeição.


Quem disse e fez tudo isso, FHC, deve calar a boca para sempre. O povo o rejeitou, o Brasil o rejeitou, democraticamente.


CALA A BOCA, FHC!

02 dezembro 2008

Desterritorialização:

“A globalização tende a desenraizar as coisas, as gentes e as idéias” - Octavio Ianni
Em seu trabalho “A Sociedade Global”, o já falecido sociólogo brasileiro Octavio Ianni, aborda no quinto capítulo de sua obra o que ele chama de Desterritorialização. Ao longo das poucas páginas dedicadas ao assunto, Ianni apresenta de forma clara, objetiva e de agradável leitura, como a globalização atua na desenraização do capital, da política e da cultura, um momento essencial da pós-modernidade.

O primeiro aspecto apontado por Ianni é que a desterritorialização coloca em xeque a noção até então conhecida de Estado-Nação, que com a financeirização, fica refém do capital especulativo e suas operações eletrônicas em busca de maiores lucros onde se oferecem menores barreiras tarifárias e maiores taxas de juros. Além disso, a cada dia, as grandes corporações assumem papéis importantes na decisão dos rumos tanto das políticas econômicas quanto sociais do Estado-Nação.

Nas palavras de Ianni:
Formam-se estruturas de poder econômico, político, social e cultural internacionais, mundiais ou globais descentradas, sem qualquer localização nítida neste ou naquele lugar, região ou nação. Estão presentes em muitos lugares, nações, continentes, parecendo flutuar por sobre Estados e fronteiras, moedas e línguas, grupos e classe, movimentos sociais e políticos. (pg.93)
Por exemplo: Foi-se o tempo em que existiam multinacionais e que era fácil saber de onde vinha o seu capital e para onde iam os seus lucros. Hoje, com a crescente venda de ações das empresas nas Bolsas de Valores, uma empresa possui como “dono” pessoas do mundo inteiro.

Além disso, outra conseqüência da globalização é a terceirização do processo produtivo, em especial rumo aos países de terceiro mundo, com legislação trabalhista frágil, um grande exército de reserva e óbvia precarização das relações de trabalho/produção. É comum que grandes empresas mantenham em seus países se origem tão somente escritórios, enquanto produzem seus produtos em galpões de Bangladesh, Indonésia, etc, a um preço ínfimo de semi-escravidão, mas vendem seus produtos em todo o mundo ao preço que a marca exige. Isso acontece principalmente com o setor de vestuário.

Ianni aponta ainda para a atuação da globalização no terrenos das ciências sociais e na formação do que ele chama de “multinacionais da sociologia, economia, ciência política, antropologia, história, geografia, psicologia, psicanálise, lingüística, educação e outras ciências” (pg.94). Percebendo a importância de atuar também no campo ideológico, o capital investe cada vez mais na universidade com patrocínios pomposos para a pesquisa de extensão também no campo das ciências biológicas e de produção.

Esta atuação do capital junto à universidade e à pesquisa, cria “intelectuais orgânicos” a seu serviço. Mas o que mais preocupa Ianni e que acaba por gerar/acentuar a ocidentalização do pensamento social. Diversos estudos comparativos servem para disseminar valores, padrões, idéias, formas de pensar e trabalhar predominantes no ocidente. Aliado à expansão dos grandes veículos de comunicação, isso dissolve as culturas locais, bem como os vínculos de lealdade e identidade dos pequenos grupos sociais ou mesmo dos Estado-Nação atingidos.

A conseqüência deste conjunto de acontecimentos com vistas apenas à reprodução/acumulação de capital é catastrófica. Nas palavras de Ianni:
O processo de desterritorialização tem acentuado e generalizado as condições de solidão. Indivíduos, famílias, grupos, classes e outros segmentos sociais perdem-se no desconcerto do mundo. (...) são continuamente bombardeados por mensagens, recados e interpretações distantes, díspares, alheias. (...) Desenvolvem-se as condições de alienação e, em conseqüência, acentuam-se as de solidão. (pg.100)
Enfim, de forma resumida e com o único propósito de apenas apresentar e instigar a leitura da obra de Octavio Ianni, temo como consideração final a sua conclusão de que “a sociedade global desterritorializa quase tudo o que encontra pela frente. E o que se mantém territorializado já não é mais a mesmo coisa” (pg.103/104). Ou seja, produz um fetichismo exacerbado em pró da nova ordem pós-moderna onde tudo é “isento de tensão e aura do real” (pg.105).

IANNI, Octávio. A Sociedade Global. [S.l.]. Ed. Civilização Brasileira: 1993.



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