16 novembro 2008

Zuzu Angel: Quem é essa mulher?


“Só queria embalar seu filho
Que mora na escuridão do mar”
(Angélica – Chico Buarque)

O Cinema brasileiro tem sido objeto de grande patrocínio por parte do Governo Federal. Leis de incentivo ao audiovisual e ao cinema, a reestruturação da Ancine e o patrocínio de empresas estatais, têm garantido o financiamento de uma nova geração de bons filmes nacionais. O período histórico da Ditadura Militar é com certeza o tema mais explorado por estas novas produções. Filmes como “Quase dois irmãos” e “Batismo de Sangue”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, o excelente documentário “Hércules 56” e “Zuzu Angel”, filme que abordaremos aqui, são alguns exemplos.

O filme é belo em retratar o dilema vivido por uma mãe, Zuzu Angel (Patrícia Pilar), diante do sumiço de seu filho Stuart Angel (Daniel de Oliveira) durante o período de maior repressão da Ditadura Militar que assolou o Brasil imprimindo 20 anos de perseguições políticas, censura e torturas.

Ao decorrer do filme, diversas questões são levantadas para instigar o debate histórico: o simulacro de legalidade do regime militar; a luta anticomunista; a participação da Igreja Católica; a luta e sonhos da juventude estudantil; a apatia da massa de brasileiros; a guerrilha urbana; as torturas; a censura; as lutas dos intelectuais exilados em tentar se fazer ouvir, etc.

O regime militar tentava transparecer tanto para a nação brasileira, quanto para os países estrangeiros, um simulacro de legalidade e democracia. Isso fica bem caracterizado no filme na tentativa do militar em mostrar uma cadeia limpa, além do tribunal militar, que era composto por cinco juízes, sendo um civil e outros quatro militares e leigos no quesito do Direito.

A desculpa oficial para o Golpe de 1964, era a de “salvar o Brasil do jugo comunista”. Não é a toa que em conversa de Zuzu com um militar no carro, este fala que o Brasil está em guerra, leia-se, contra a ameaça comunista, e uma vez em guerra, diz respeitar a Convenção de Genebra, na tentativa de sustentar a legalidade do regime.

O golpe foi apoiado pela cristandade católica. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” é um exemplo disso. O diálogo de Zuzu com um padre católico e sua revolta diante das palavras do sacerdote não são bem interessantes para pensarmos a situação dúbia que vivia a Igreja Católica diante do Regime Militar. Enquanto alguns padres legitimavam o discurso dos Militares, outros mais progressistas e ligados a uma nova teologia, abrigavam em seus conventos diversos militantes da luta contra a Ditadura, quando não muitos de seus seminaristas estavam engajados no processo. Vide o filme “Batismo de Sangue”.

Os sonhos da juventude militante estão presentes no filme nas pessoas de Stuart Angel e sua namorada Sônia (Leandra Leal). Stuart se diz Socialista. Tem sonhos de mudar o mundo. Combate o Imperialismo. Participa da luta armada e dos confrontos diretos pelas ruas do Rio de Janeiro contra os militares.

Apesar disso, a massa de brasileiros não estava consciente do que ocorria nos porões dos quartéis militares. A própria Zuzu Angel é um exemplo disso. Mesmo diante do vigor militante de seu filho, está mais preocupada em costurar para a elite fluminense e estadunidense, do que com os problemas reais do Brasil. Ao longo do filme, é visível a sua mudança de atitude, mas é importante deixar claro, que tal mudança se dá tão somente após a morte de seu filho, e sua luta contra o Regime Militar, é antes de tudo, uma luta quase vingativa contra os assassinos de seu pequeno Stuart Angel. Sobre esta apatia da população brasileira, ver também o filme “O Ano em que meus pais saíram de férias”.

E como era dura a vida daqueles privilegiados que puderam perceber a realidade e tiveram a coragem de lutar. Stuart e Sônia participam da guerrilha urbana. Vivem de forma clandestina, utilizam-se de codinomes, precisam de exílio, e da ajuda e solidariedade dos companheiros e familiares etc.

Quando um destes militantes caía nas mãos dos militares, a tortura era certa. O filme sabe chocar na dose certa ao representar algumas cenas de tortura e o sofrimento a que eram submetidos os jovens. No “Batismo de Sangue” as cenas são mais fortes. Muitos jovens não resistiam à violência das prisões e acabavam morrendo. Como ao Estado era permitido prender sem um devido processo ou mesmo comunicação ao juiz competente, os mortos eram jogados no mar e dados como desaparecidos. Uma atitude desumana e hipócrita, para ficar em apenas dois adjetivos.

Zuzu tenta o tempo todo se fazer ouvir. Mas os jornais brasileiros estão sob forte censura, apensar de muitos deles não ligarem muito para este fato. As emissoras de TV reproduzem e acentuam o discurso oficial. Mesmo no exterior, os organismos internacionais não parecem muito interessados no caso brasileiro.

É interessante no filme ainda a rede de correspondência entre intelectuais, militantes e familiares. Apesar do forte aparato militar, os militantes ainda conseguiam, mesmo que de forma precária, trocar cartas e telefones. Os exilados eram informados da situação interna.

Impressionante, para não dizer revoltante, a forma utilizada pelo Exército para tentar frear/calar a voz daqueles que tentavam abrir os olhos da população sobre os crimes militares. Acidentes de trânsito não tão acidentais assim, explosões colocadas na conta dos comunistas, escutas telefônicas, agentes disfarçados seguindo os passos dos “subversivos”, uma vasta rede de informantes, etc. Pior de tudo é que, ainda hoje, o Exército nega a morte de Stuart Angel e de outras centenas de militantes.

Já não vivemos mais sob o jugo de um regime ditatorial, pelo menos não por parte do Estado, no entanto, o sonho de Zuzu e de outras milhares de famílias e torturados não se realizou. Os criminosos torturadores daquele período não pagaram por suas atrocidades. Uma Lei de Anistia acabou sendo muito “ampla, geral e irrestrita”. Nos versos de Chico Buarque, apesar deles, hoje é um outro dia, mas parte daqueles belos versos ainda estão por se realizar, “Quando chegar o momento/ Esse meu sofrimento/ Vou cobrar com Juros. Juro!”.

Enfim, o filme Zuzu Angel não é apenas um bom momento para relaxar em frente à TV. É antes de tudo um filme militante, para militantes e não-militantes, mas é também um instigador de debates, como tentamos encaminhar aqui, o que pode muito bem ser utilizado em sala de aula para discutir com os alunos, diversas nuances do Período Militar brasileiro.

2 Comentários:

Às 18/11/08 7:47 PM , Blogger Mauro Sérgio disse...

O interessante é que muitos órgãos de imprensa, ao fazerem a crítica do filme, fizeram de tudo para esvaziar o conteúdo político do filme. Enfatizavam o fato de ser uma mãe lutando para fazer justiça a seu filho, etc.

A mesma coisa que fizeram com "Olga", outro belíssimo filme nacional de forte conteúdo político.

 
Às 25/11/08 7:32 AM , Blogger Dorian disse...

A realidade é que a imensa maioria das pessoas não liga para ideologia ou até mesmo para política. O interesse maior do indivíduo médio é sua própria vida, seu conforto, conveniência e sobrevivência. Algo de muito grave tem que acontecer para uma mudança de atitude, como no caso do filme, a morte de um filho. Não se iluda, se Stuart tivesse sido morto por comunistas ou esquerdistas, Zuzu seria uma militante fiel da ditadura. Sua luta realmente não foi política.

 

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