21 novembro 2008

Passado e Presente:

O processo de redemocratização a que passou o Brasil nos anos 1980 inspirou uma série de trabalhos acadêmicos sobre a história da República Brasileira, seus acertos e desacertos, a participação do povo e das elites, a economia, a política e etc. Uma das obras deste período e que tornou-se um clássico da historiografia brasileira é “Os Bestializados” de José Murilo de Carvalho.

Em seu primeiro capítulo, o único que será objeto de análise aqui, intitulado “O Rio de Janeiro e a República”, José Murilo traça um interessante panorama da então capital federal quando a Proclamação da República em 1889.

Sua linha condutora é a idéia de que o povo assistia “bestializado” a Proclamação, como se assistisse a um desfile militar. Para o autor, não houve uma “revolução”, o povo não participou do processo de mudança, mas sim, que esta se deu apenas devido à ingerência das classes abastadas e dos militares. Para José Murilo, este seria o “pecado original” da República brasileira, ainda hoje não sanado e que influenciará sobremaneira o trato da coisa pública ao longo de nossa história.

Apesar de lançar argumentos contundentes no sentido de sustentar a sua tese, devemos entender seu livro como uma tentativa de, buscar no passado as respostas para as contradições sócio-políticas do processo de redemocratização no final da década de 1980.

Quanto a cidade do Rio de Janeiro, o texto traz pertinentes informações sobre o período conturbado que viveu logo no começo da era republicana, e implicitamente, como isso se revela até hoje na composição social-geográfica da cidade maravilhosa.
Primeiro foram as expectativas criadas sobre o novo regime, depois seu aumento populacional, devido principalmente à imigração. O impacto disso foi o aumento da desigualdade social, e a repressão às “classes perigosas”.

No Rio de Janeiro a insalubridade reinava absoluta. Problemas no abastecimento de água, falta de saneamento e de higiene agravaram as condições de saúde local. O governo inglês concedia a seus diplomatas um adicional pelo risco que corriam morando na capital. Qualquer semelhança com o Rio de hoje não é mera coincidência.

A cidade era quem impulsionava o país. Tudo que acontecia era acompanhado pelas demais províncias. O que era moda no Rio logo tornava-se moda no restante do país, seja econômica, política ou socialmente falando.

Interessante é a forma “ditatorial” com que o autor descreve os primórdios de nossa República. A tentativa de tornar o Rio de Janeiro a “Paris dos trópicos” devido à política do “bota abaixo!”, demolindo os cortiços e casas do centro para a abertura de grandes avenidas. Aos desalojados restou apenas a companhia dos ex-escravos que já habitavam os morros da cidade.

Além disso, o governo impôs a vacinação obrigatória, causando a revolta popular não contra o ato de vacina em si, mas principalmente pela forma autoritária que o governo impôs tal medida.

Este primeiro capítulo traz ainda diversas informações relevantes acerca das mudanças culturais da época, os problemas econômicos, políticos e ideológicos.

Enfim, para aqueles que querem entender um pouco mais sobre os problemas atuais da República brasileira e até mesmo da cidade do Rio de Janeiro, fica a dica de leitura, pois como diria o próprio José Murilo na introdução do livro: “Ao reler a história com os olhos de hoje talvez pudéssemos dizer que os vivos, ao tentar reconstruir o passado, tentam governar os mortos na ilusão de poderem governar a si próprios. Ou, em versão pessimista, na frustração de o não poderem fazer” (1987: 14).
Referência Bibliográfica:

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro que não foi. São Paulo: Compania das Letras, 1987.

1 Comentários:

Às 22/11/08 8:23 AM , Blogger Mauro Sérgio disse...

A "cidade partida", expressão consagrada pelo jornalista Zuenir Ventura, teve origem exatamente nesse processo.

Os negros e pobres, indesejáveis às elites que começavam a ocupar o centro da cidade, refugiaram-se nos morros, dando origem as favelas.

A outra alternativa era refugiar-se junto às paradas da estrada de ferro que seguia até o matadouro de Santa Cruz, na zona rural do Rio. Em torno dessas paradas é que se originou o subúrbio do Rio.

 

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