26 novembro 2008

Humanização e Desumanização: Uma análise do filme Robinson Crusoé


Robinson Crusoé é um inglês mercador de escravos, que vê se navio ser arrastado por uma tempestade e se torna o único sobrevivente em uma ilha aparentemente deserta. Até aqui nada de mais, afinal, vários livros e filmes trabalham com esta abordagem. No entanto, trata-se do livro homônimo de Daniel Defoe, publicado originalmente no ano de 1719 e que se tornou um dos maiores clássicos da literatura mundial, e o filme é a adaptação de um dos maiores cineastas do século XX, o espanhol radicado no México, Luís Buñuel, de grande influência surrealista e considerado um dos mais controversos cineastas do mundo.


O filme nos apresenta algumas questões, dentre outras, para serem debatidas: a necessidade que o homem tem dos seus bens materiais e alimentares; a capacidade humana em fazer estes bens e alimentos; a relação do homem com Deus e o diabo; como o homem ocidental lida com alguém que ele entende ser inferior; porque a partir do momento em que Crusoé encontra Sexta-feira e constitui uma espécie de “mini-sociedade”, passa a agir como opressor; por fim, e talvez o mais importante, a humanização de Sexta-feira e a desumanização de Crusoé.


Crusoé, o terceiro filho de uma boa família, mas sem nenhuma educação em ramo algum, durante a primeira metade do filme onde se encontra sozinho na ilha, com a companhia apenas de seu gato e seu cachorro, sente as necessidades materiais mais básicas para se abrigar das chuvas, bem como para se alimentar. A solução encontrada, e que até certo ponto surpreende o próprio Crusoé, é a sua capacidade, talvez inerente a todo ser humano, de plantar, criar animais, construir sua moradia, beneficiar seus alimentos e etc.


Embora em uma ilha deserta, Crusoé não parece sofrer tanto com a falta de conforto, embora o sinta, mas sim consegue adaptar-se as necessidades encontradas. Ele me parece até ficcional demais devido a sua capacidade laborativa. Mas talvez a mensagem pretendida é a de que, apesar das adversidades, o homem dotado de razão consegue o que quiser. Não podemos nos esquecer que o livro é do século XVIII, muito influenciado pelo pensamento iluminista.


Uma das passagens mais instigantes do filme, é quando Crusoé vai “ensinar” a Sexta-feira sobre o amor de Deus. Pedimos a licença para transcrever aqui o seu diálogo:

Crusoé: _Entenda, Sexta-feira. O diabo é o inimigo de Deus nos corações dos homens. Ele usa de toda malícia e habilidade para destruir o reino de Cristo.
Sexta-feira: _Mas o amo diz que Deus é tão forte e grande que seu reino deve ser mais forte que o do diabo.
Crusoé: _Sim, Sexta-feira, Deus é mais forte que o diabo. Ele está acima do Diabo, por isso rezamos para Deus.
Sexta-feira: _Mas se Deus é mais forte que o diabo, por que Deus não mata o diabo, para que ele não se torne pior ainda?
Crusoé: _O que foi, Sexta-feira?
Sexta-feira: _Se Deus é mais forte, por que não mata o diabo?
Crusoé: _Bem, veja, Sexta-feira, sem o Diabo não haveria tentação, nem pecado. O diabo deve existir para que tenhamos a escolha entre o pecado, ou resistir a ele.
Sexta-feira: _Deus deixa o diabo nos tentar?
Crusoé: _Sim.
Sexta-feira: _Então, por que Deus fica bravo, quando pecamos?
Crusoé vira-se para o seu papagaio e em tom de zombaria diz: _Você entende, não, Poll? Sexta-feira não consegue enfiar estas coisas na sua cabeça. Você entende, não é?
A cena termina com Crusoé pensativo.

Ora, será que Crusoé, mesmo sem se aperceber disso, comparou aqueles que crêem em Deus sem questionar como meros papagaios reprodutores daquilo que outros os ensinaram? Sexta-feira, em sua ingenuidade de estado natural é mais racional que um europeu cristão? Fica a provocação.


Crusoé era um mercador de escravos. Ao salvar Sexta-feira dos canibais, talvez com o único intuído já de o ter como “semi-escravo”, passa a agir como um legítimo europeu em condição de superioridade. Apesar de que o próprio Sexta-feira entende que o deve a sua vida.


A primeira coisa que Crusoé ensina à Sexta-feira é a hierarquia. Crusoé se intitula de “amo” e passa a ensinar seu companheiro às tarefas diárias, não para humanizá-los, mas sim para poder descansar, depois de muito trabalho solitário na ilha. Mas com o passar dos dias, Crusoé, inconscientemente, percebe que a humanização de Sexta-feira é perigosa, afinal, isso pode o fazer entender sua situação de subalternidade e o forçar a rebelar-se contra seu “amo”, matando-o. Crusoé então o algema os pés e faz Sexta-feira literalmente de escravo, pelo menos por uma noite.


Podemos perceber nestas e em outras atitudes de Crusoé, o discurso de que, em estado de natureza o homem é bom, é a sociedade que o corrompe. Ou seja, a partir do momento em que Crusoé encontra outro ser-humano, que estava nas mesmas condições dificultosas de sobrevivência, forma-se uma espécie de “mini-sociedade” e Crusoé se intitula como “amo” e “governador da ilha”. Parece-nos, que Sexta-feira conseguiu se humanizar, enquanto Crusoé, assim que possível, manteve os hábitos de exploração característicos das sociedades ocidentais-cristãs-européias à época e porque não dizer, ainda nos dias atuais.

4 Comentários:

Às 27/11/08 9:22 PM , Blogger Dorian disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 28/11/08 12:10 AM , Blogger vitorgardenal disse...

oi cássio, a partir de hoje estarei cometando no seu blog... um grande abraço do seu amigo...

 
Às 28/11/08 9:34 PM , Blogger Dorian disse...

Cássio,

Apaguei o comentário anterior pois continha um erro imperdoável de português. Estou mandando novamente devidamente corrigido.

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Cássio,

Restou-me uma dúvida: Se Robinson Crusoé fosse oriundo de uma sociedade oriental-budista-asiática e encontrasse o selvagem sexta-feira naquela ilha perdida? O que teria acontecido? Teria sido dominado culturalmente e passaria a morar no mato e se transmutaria em um silvícola??

 
Às 17/4/11 7:25 PM , Blogger phelipe-silva144 disse...

Robinson Crusoé, um marinheiro britânico, único sobrevivente de um naufrágio, que é levado pelas águas até uma remota ilha deserta. Enfrentando os desafios da natureza e vivendo em extrema solidão, Crusoé se vê forçado a lutar contra as armadilhas da própria mente, a fim de manter-se longe da loucura. Mas a grande ironia chega por meio de um nativo que Crusoé salva de uma tribo de canibais, o qual batiza de Sexta-feira. A necessidade urgente de companhia fará Crusoé confrontar seus princípios racistas, nascendo daí um laço tão grande de amizade como ele nunca havia conhecido. E é essa amizade peculiar que lhe dará forças para sobreviver a todas as adversidades e encontrar seu caminho de volta a civilização.

 

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