28 novembro 2008

FAFIPA e UEM


Mais uma vez vem a tona o debate acerca da incorporação da FAFIPA à UEM. Interessante que os Blogs da região tem encampado este debate e abriram um espaço interessante para tal. Alguns textos foram postados e vários comentários tem sido proferidos.

O primeiro Blog que se manifestou a respeito foi o do Joaquim de Paula, comunicador preocupado com a região noroeste do Paraná. Há uma entrevista com o reitor da UEM em 16/11. Posteriormente o Blog Noroestão publicou em 20/11, um texto de Carlos KK Scarabelli, ex-presidente do DCE Fafipa. Também o companheiro Valmir Trentini, em data de 22/11 começou a divulgar mais o assunto.

Pois bem. Este tema incita muitas paixões e o debate vem crescendo na blogosfera. É uma pena que os alunos, os principais interessados, não se mostram muito entusiasmados com o debate, mas em se tratando de FAFIPA, é até compreensível.

A discussão ganhou fôlego neste últimos dias. O professor do DHI/FAFIPA, atualmente fazendo doutorado na UFSC, publicou um texto a favor da fusão FAFIPA/UEM. A Resposta veio em um texto do graduado em Pedagogia pela FAFIPA Leandro Machado contrário à fusão. Respondi ao seu comentário em texto publicado no Blog do MOVER. Por fim, o professor Augusto mais uma vez postou suas considerações.

Particularmente, sou totalmente a favor da incorporação da FAFIPA à UEM. Os motivos? Leiam os argumentos do professor Augusto e os meus. E qual a sua opinião? Acessem os Blogs que estão debatendo esta idéia:

Valmir Trentini
Noroestão
Joaquim de Paula
MOVER

26 novembro 2008

Humanização e Desumanização: Uma análise do filme Robinson Crusoé


Robinson Crusoé é um inglês mercador de escravos, que vê se navio ser arrastado por uma tempestade e se torna o único sobrevivente em uma ilha aparentemente deserta. Até aqui nada de mais, afinal, vários livros e filmes trabalham com esta abordagem. No entanto, trata-se do livro homônimo de Daniel Defoe, publicado originalmente no ano de 1719 e que se tornou um dos maiores clássicos da literatura mundial, e o filme é a adaptação de um dos maiores cineastas do século XX, o espanhol radicado no México, Luís Buñuel, de grande influência surrealista e considerado um dos mais controversos cineastas do mundo.


O filme nos apresenta algumas questões, dentre outras, para serem debatidas: a necessidade que o homem tem dos seus bens materiais e alimentares; a capacidade humana em fazer estes bens e alimentos; a relação do homem com Deus e o diabo; como o homem ocidental lida com alguém que ele entende ser inferior; porque a partir do momento em que Crusoé encontra Sexta-feira e constitui uma espécie de “mini-sociedade”, passa a agir como opressor; por fim, e talvez o mais importante, a humanização de Sexta-feira e a desumanização de Crusoé.


Crusoé, o terceiro filho de uma boa família, mas sem nenhuma educação em ramo algum, durante a primeira metade do filme onde se encontra sozinho na ilha, com a companhia apenas de seu gato e seu cachorro, sente as necessidades materiais mais básicas para se abrigar das chuvas, bem como para se alimentar. A solução encontrada, e que até certo ponto surpreende o próprio Crusoé, é a sua capacidade, talvez inerente a todo ser humano, de plantar, criar animais, construir sua moradia, beneficiar seus alimentos e etc.


Embora em uma ilha deserta, Crusoé não parece sofrer tanto com a falta de conforto, embora o sinta, mas sim consegue adaptar-se as necessidades encontradas. Ele me parece até ficcional demais devido a sua capacidade laborativa. Mas talvez a mensagem pretendida é a de que, apesar das adversidades, o homem dotado de razão consegue o que quiser. Não podemos nos esquecer que o livro é do século XVIII, muito influenciado pelo pensamento iluminista.


Uma das passagens mais instigantes do filme, é quando Crusoé vai “ensinar” a Sexta-feira sobre o amor de Deus. Pedimos a licença para transcrever aqui o seu diálogo:

Crusoé: _Entenda, Sexta-feira. O diabo é o inimigo de Deus nos corações dos homens. Ele usa de toda malícia e habilidade para destruir o reino de Cristo.
Sexta-feira: _Mas o amo diz que Deus é tão forte e grande que seu reino deve ser mais forte que o do diabo.
Crusoé: _Sim, Sexta-feira, Deus é mais forte que o diabo. Ele está acima do Diabo, por isso rezamos para Deus.
Sexta-feira: _Mas se Deus é mais forte que o diabo, por que Deus não mata o diabo, para que ele não se torne pior ainda?
Crusoé: _O que foi, Sexta-feira?
Sexta-feira: _Se Deus é mais forte, por que não mata o diabo?
Crusoé: _Bem, veja, Sexta-feira, sem o Diabo não haveria tentação, nem pecado. O diabo deve existir para que tenhamos a escolha entre o pecado, ou resistir a ele.
Sexta-feira: _Deus deixa o diabo nos tentar?
Crusoé: _Sim.
Sexta-feira: _Então, por que Deus fica bravo, quando pecamos?
Crusoé vira-se para o seu papagaio e em tom de zombaria diz: _Você entende, não, Poll? Sexta-feira não consegue enfiar estas coisas na sua cabeça. Você entende, não é?
A cena termina com Crusoé pensativo.

Ora, será que Crusoé, mesmo sem se aperceber disso, comparou aqueles que crêem em Deus sem questionar como meros papagaios reprodutores daquilo que outros os ensinaram? Sexta-feira, em sua ingenuidade de estado natural é mais racional que um europeu cristão? Fica a provocação.


Crusoé era um mercador de escravos. Ao salvar Sexta-feira dos canibais, talvez com o único intuído já de o ter como “semi-escravo”, passa a agir como um legítimo europeu em condição de superioridade. Apesar de que o próprio Sexta-feira entende que o deve a sua vida.


A primeira coisa que Crusoé ensina à Sexta-feira é a hierarquia. Crusoé se intitula de “amo” e passa a ensinar seu companheiro às tarefas diárias, não para humanizá-los, mas sim para poder descansar, depois de muito trabalho solitário na ilha. Mas com o passar dos dias, Crusoé, inconscientemente, percebe que a humanização de Sexta-feira é perigosa, afinal, isso pode o fazer entender sua situação de subalternidade e o forçar a rebelar-se contra seu “amo”, matando-o. Crusoé então o algema os pés e faz Sexta-feira literalmente de escravo, pelo menos por uma noite.


Podemos perceber nestas e em outras atitudes de Crusoé, o discurso de que, em estado de natureza o homem é bom, é a sociedade que o corrompe. Ou seja, a partir do momento em que Crusoé encontra outro ser-humano, que estava nas mesmas condições dificultosas de sobrevivência, forma-se uma espécie de “mini-sociedade” e Crusoé se intitula como “amo” e “governador da ilha”. Parece-nos, que Sexta-feira conseguiu se humanizar, enquanto Crusoé, assim que possível, manteve os hábitos de exploração característicos das sociedades ocidentais-cristãs-européias à época e porque não dizer, ainda nos dias atuais.

21 novembro 2008

Passado e Presente:

O processo de redemocratização a que passou o Brasil nos anos 1980 inspirou uma série de trabalhos acadêmicos sobre a história da República Brasileira, seus acertos e desacertos, a participação do povo e das elites, a economia, a política e etc. Uma das obras deste período e que tornou-se um clássico da historiografia brasileira é “Os Bestializados” de José Murilo de Carvalho.

Em seu primeiro capítulo, o único que será objeto de análise aqui, intitulado “O Rio de Janeiro e a República”, José Murilo traça um interessante panorama da então capital federal quando a Proclamação da República em 1889.

Sua linha condutora é a idéia de que o povo assistia “bestializado” a Proclamação, como se assistisse a um desfile militar. Para o autor, não houve uma “revolução”, o povo não participou do processo de mudança, mas sim, que esta se deu apenas devido à ingerência das classes abastadas e dos militares. Para José Murilo, este seria o “pecado original” da República brasileira, ainda hoje não sanado e que influenciará sobremaneira o trato da coisa pública ao longo de nossa história.

Apesar de lançar argumentos contundentes no sentido de sustentar a sua tese, devemos entender seu livro como uma tentativa de, buscar no passado as respostas para as contradições sócio-políticas do processo de redemocratização no final da década de 1980.

Quanto a cidade do Rio de Janeiro, o texto traz pertinentes informações sobre o período conturbado que viveu logo no começo da era republicana, e implicitamente, como isso se revela até hoje na composição social-geográfica da cidade maravilhosa.
Primeiro foram as expectativas criadas sobre o novo regime, depois seu aumento populacional, devido principalmente à imigração. O impacto disso foi o aumento da desigualdade social, e a repressão às “classes perigosas”.

No Rio de Janeiro a insalubridade reinava absoluta. Problemas no abastecimento de água, falta de saneamento e de higiene agravaram as condições de saúde local. O governo inglês concedia a seus diplomatas um adicional pelo risco que corriam morando na capital. Qualquer semelhança com o Rio de hoje não é mera coincidência.

A cidade era quem impulsionava o país. Tudo que acontecia era acompanhado pelas demais províncias. O que era moda no Rio logo tornava-se moda no restante do país, seja econômica, política ou socialmente falando.

Interessante é a forma “ditatorial” com que o autor descreve os primórdios de nossa República. A tentativa de tornar o Rio de Janeiro a “Paris dos trópicos” devido à política do “bota abaixo!”, demolindo os cortiços e casas do centro para a abertura de grandes avenidas. Aos desalojados restou apenas a companhia dos ex-escravos que já habitavam os morros da cidade.

Além disso, o governo impôs a vacinação obrigatória, causando a revolta popular não contra o ato de vacina em si, mas principalmente pela forma autoritária que o governo impôs tal medida.

Este primeiro capítulo traz ainda diversas informações relevantes acerca das mudanças culturais da época, os problemas econômicos, políticos e ideológicos.

Enfim, para aqueles que querem entender um pouco mais sobre os problemas atuais da República brasileira e até mesmo da cidade do Rio de Janeiro, fica a dica de leitura, pois como diria o próprio José Murilo na introdução do livro: “Ao reler a história com os olhos de hoje talvez pudéssemos dizer que os vivos, ao tentar reconstruir o passado, tentam governar os mortos na ilusão de poderem governar a si próprios. Ou, em versão pessimista, na frustração de o não poderem fazer” (1987: 14).
Referência Bibliográfica:

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro que não foi. São Paulo: Compania das Letras, 1987.

16 novembro 2008

Zuzu Angel: Quem é essa mulher?


“Só queria embalar seu filho
Que mora na escuridão do mar”
(Angélica – Chico Buarque)

O Cinema brasileiro tem sido objeto de grande patrocínio por parte do Governo Federal. Leis de incentivo ao audiovisual e ao cinema, a reestruturação da Ancine e o patrocínio de empresas estatais, têm garantido o financiamento de uma nova geração de bons filmes nacionais. O período histórico da Ditadura Militar é com certeza o tema mais explorado por estas novas produções. Filmes como “Quase dois irmãos” e “Batismo de Sangue”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, o excelente documentário “Hércules 56” e “Zuzu Angel”, filme que abordaremos aqui, são alguns exemplos.

O filme é belo em retratar o dilema vivido por uma mãe, Zuzu Angel (Patrícia Pilar), diante do sumiço de seu filho Stuart Angel (Daniel de Oliveira) durante o período de maior repressão da Ditadura Militar que assolou o Brasil imprimindo 20 anos de perseguições políticas, censura e torturas.

Ao decorrer do filme, diversas questões são levantadas para instigar o debate histórico: o simulacro de legalidade do regime militar; a luta anticomunista; a participação da Igreja Católica; a luta e sonhos da juventude estudantil; a apatia da massa de brasileiros; a guerrilha urbana; as torturas; a censura; as lutas dos intelectuais exilados em tentar se fazer ouvir, etc.

O regime militar tentava transparecer tanto para a nação brasileira, quanto para os países estrangeiros, um simulacro de legalidade e democracia. Isso fica bem caracterizado no filme na tentativa do militar em mostrar uma cadeia limpa, além do tribunal militar, que era composto por cinco juízes, sendo um civil e outros quatro militares e leigos no quesito do Direito.

A desculpa oficial para o Golpe de 1964, era a de “salvar o Brasil do jugo comunista”. Não é a toa que em conversa de Zuzu com um militar no carro, este fala que o Brasil está em guerra, leia-se, contra a ameaça comunista, e uma vez em guerra, diz respeitar a Convenção de Genebra, na tentativa de sustentar a legalidade do regime.

O golpe foi apoiado pela cristandade católica. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” é um exemplo disso. O diálogo de Zuzu com um padre católico e sua revolta diante das palavras do sacerdote não são bem interessantes para pensarmos a situação dúbia que vivia a Igreja Católica diante do Regime Militar. Enquanto alguns padres legitimavam o discurso dos Militares, outros mais progressistas e ligados a uma nova teologia, abrigavam em seus conventos diversos militantes da luta contra a Ditadura, quando não muitos de seus seminaristas estavam engajados no processo. Vide o filme “Batismo de Sangue”.

Os sonhos da juventude militante estão presentes no filme nas pessoas de Stuart Angel e sua namorada Sônia (Leandra Leal). Stuart se diz Socialista. Tem sonhos de mudar o mundo. Combate o Imperialismo. Participa da luta armada e dos confrontos diretos pelas ruas do Rio de Janeiro contra os militares.

Apesar disso, a massa de brasileiros não estava consciente do que ocorria nos porões dos quartéis militares. A própria Zuzu Angel é um exemplo disso. Mesmo diante do vigor militante de seu filho, está mais preocupada em costurar para a elite fluminense e estadunidense, do que com os problemas reais do Brasil. Ao longo do filme, é visível a sua mudança de atitude, mas é importante deixar claro, que tal mudança se dá tão somente após a morte de seu filho, e sua luta contra o Regime Militar, é antes de tudo, uma luta quase vingativa contra os assassinos de seu pequeno Stuart Angel. Sobre esta apatia da população brasileira, ver também o filme “O Ano em que meus pais saíram de férias”.

E como era dura a vida daqueles privilegiados que puderam perceber a realidade e tiveram a coragem de lutar. Stuart e Sônia participam da guerrilha urbana. Vivem de forma clandestina, utilizam-se de codinomes, precisam de exílio, e da ajuda e solidariedade dos companheiros e familiares etc.

Quando um destes militantes caía nas mãos dos militares, a tortura era certa. O filme sabe chocar na dose certa ao representar algumas cenas de tortura e o sofrimento a que eram submetidos os jovens. No “Batismo de Sangue” as cenas são mais fortes. Muitos jovens não resistiam à violência das prisões e acabavam morrendo. Como ao Estado era permitido prender sem um devido processo ou mesmo comunicação ao juiz competente, os mortos eram jogados no mar e dados como desaparecidos. Uma atitude desumana e hipócrita, para ficar em apenas dois adjetivos.

Zuzu tenta o tempo todo se fazer ouvir. Mas os jornais brasileiros estão sob forte censura, apensar de muitos deles não ligarem muito para este fato. As emissoras de TV reproduzem e acentuam o discurso oficial. Mesmo no exterior, os organismos internacionais não parecem muito interessados no caso brasileiro.

É interessante no filme ainda a rede de correspondência entre intelectuais, militantes e familiares. Apesar do forte aparato militar, os militantes ainda conseguiam, mesmo que de forma precária, trocar cartas e telefones. Os exilados eram informados da situação interna.

Impressionante, para não dizer revoltante, a forma utilizada pelo Exército para tentar frear/calar a voz daqueles que tentavam abrir os olhos da população sobre os crimes militares. Acidentes de trânsito não tão acidentais assim, explosões colocadas na conta dos comunistas, escutas telefônicas, agentes disfarçados seguindo os passos dos “subversivos”, uma vasta rede de informantes, etc. Pior de tudo é que, ainda hoje, o Exército nega a morte de Stuart Angel e de outras centenas de militantes.

Já não vivemos mais sob o jugo de um regime ditatorial, pelo menos não por parte do Estado, no entanto, o sonho de Zuzu e de outras milhares de famílias e torturados não se realizou. Os criminosos torturadores daquele período não pagaram por suas atrocidades. Uma Lei de Anistia acabou sendo muito “ampla, geral e irrestrita”. Nos versos de Chico Buarque, apesar deles, hoje é um outro dia, mas parte daqueles belos versos ainda estão por se realizar, “Quando chegar o momento/ Esse meu sofrimento/ Vou cobrar com Juros. Juro!”.

Enfim, o filme Zuzu Angel não é apenas um bom momento para relaxar em frente à TV. É antes de tudo um filme militante, para militantes e não-militantes, mas é também um instigador de debates, como tentamos encaminhar aqui, o que pode muito bem ser utilizado em sala de aula para discutir com os alunos, diversas nuances do Período Militar brasileiro.

09 novembro 2008

Agora é Obama!


O mundo tem um novo presidente. Tudo bem que oficialmente ele governe “apenas” os Estados Unidos, mas na prática, Barack Obama terá os destinos de toda a população mundial em suas mãos. Estou exagerando? Pode ser, mas não há como negar todo o poder constituído no cargo de Presidente do maior Império mundial.

Estes dias, todo o mundo acompanhou com expectativas as eleições nos Estados Unidos. Era unânime a expectativa de mudança. Há pouco mais de um ano, apenas as pessoas mais ligadas à política dos EUA conheciam Barack Obama. Eu mesmo nunca tinha ouvido falar nele.

Com uma excelente campanha de marketing, Obama se transformou no salvador. O Messias prometido. O príncipe negro que veio redimir os pecados do mundo e trazer a salvação a todos. Reparem nas imagens e nas fotos de Obama: terno impecável, família perfeita, olhar direto e seguro na câmera, sorriso colgate, jovem, forte, disposto, ar angelical, fala firme e etc. Uma mistura de Jesus Cristo com Clark Kent.

Em conversa com o companheiro e mestre Vanderlei, isso nos remeteu à 1989 e a campanha presidencial no Brasil. Fernando Collor de Melo era um ilustre desconhecido antes da campanha, mas uma brilhante campanha publicitária misturada com o “medo vermelho” representado por Lula e Brizola o levou à presidência. Collor era o nosso salvador da pátria, o caçador de marajás, bem vestido, jovem, atlético, seguro em sua fala e etc... Esperamos que desta vez o resultado seja melhor.

Por mais que este Blog também tenha apoiado e torcido por Obama, não sejamos ingênuos de pensar que sua eleição significa uma mudança radical nas políticas externas dos EUA. Quem assistiu ao documentário “The Corporation” sabe do que estou falando. Não pensemos que do dia para a noite, Obama acabará com o inexplicável embargo econômico a Cuba, retirará as tropas do Iraque e Afeganistão, acabará com a lista de país do “eixo-do-mal”, intervirá de forma neutra no conflito Palestina x Israel, nunca mais intervirá militarmente ou mesmo CIAmente em qualquer país do globo, olhará a América Latina não mais como seu quintal e etc, etc, etc...

04 novembro 2008

A política do Big Stick:

Quando os interesses dos cidadãos e dos capitalistas estadunidenses estavam “ameaçados” na América Latina, o governo dos Estados Unidos mandavam os seus marines para “proteger a vida e os interesses dos cidadãos norte-americanos”. Esta é a política do Big Stick (grande porrete). Duvida? Lei o depoimento dado em 1935, por um ex-comandante de tropa dos EUA que atuou na América Central.

“Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar deste país: o Corpo de Infantaria da Marinha. Servi em todas as hierarquias, desde segundo-tenente até general-de-divisão. E durante todo este período, passei a maior parte do tempo em funções de pistoleiro de primeira classe para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em uma palavra, fui um pistoleiro do capitalismo (...) Assim, por exemplo, em 1914 ajudei a fazer com que o México, e em especial Tampico, se tornasse uma presa fácil para os interesses petrolíferos norte-americanos. Ajudei a tornar Haiti e Cuba lugares decentes para a cobrança de juros por parte do National City Bank (...) Em 1909-12 ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional Brown Brothers. Em 1916, levei a luz à República Dominicana, em nome dos interesses açucareiros norte-americanos. Em 1903, ajudei a ‘pacificar’ Honduras em benefício das companhias frutíferas norte-americanas”.
(Smedley D. Butler)

A política do Big Stick não hesitava em derrubar presidentes, substituir ditadores ou implantar ditaduras, desde que, é claro, os novos governantes se comprometessem com a defesa dos interesses estadunidenses no país em questão. Pobre América Latina. Nas palavras do ex-presidente dos Estados Unidos William Howard Taft (1912):

“Não está longe o dia em que três bandeiras de listras e estrelas marcarão em três lugares eqüidistantes a extensão de nosso território: uma no Pólo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Pólo Sul. Todo o hemisfério será nosso, de fato, como já é nosso moralmente, em virtude de nossa superioridade racial (...) não exclui de modo algum uma ativa intervenção para assegurar a nossas mercadorias e a nossos capitalistas facilidades para as inversões lucrativas”.

E você ainda acredita que eles são os defensores da democracia e da liberdade?

Fonte: GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Rio de Janeiro, Paz e Terra: 2007, p.141-142.

01 novembro 2008

A apatia me incomoda!

Como já disse muitas vezes por aqui, este Blog é para ser um espaço de provocações, para remexer o leitor da cadeira, para tentar tirá-lo do estado de apatia e de naturalização que reina no mundo pós-moderno. A incapacidade de se indignar, de buscar seus direitos e melhorias para a sua vida, que as pessoas adquiriram hoje em dia é que tentam ser combatidos neste Blog.

Pois bem, recentemente passei por uma experiência interessante e que pode ilustrar bem o que quero dizer aqui.

Aqui na cidade de Nova Londrina-PR, uma cidadezinha com pouco mais de 10.000 habitantes, ocorreu em um fim de semana uma festa sertaneja. O convite para cada noite custava R$ 15,00, mas você também tinha a possibilidade de comprar o passaporte por R$ 20,00 e entrar nas duas noites.

A festa da sexta-feira foi legal, pena que o tempo não ajudou e o organizador do evento teve prejuízo. No sábado, simplesmente não teve a festa. Várias pessoas chegaram a ir para o clube, com passaporte na mão, e encontrá-lo às escuras. Claro que na hora ficou todo mundo indignado. Sem problemas cancelar uma festa em cima da hora, mas e quem havia comprado o passaporte, como fica? O organizador avisou que devolveria R$ 5,00 para quem estava com o passaporte.

Dentro do universo de cerca de 200 passaportes vendidos, claro que muitos aceitaram receber os R$ 5,00. Eu não. Argumentei que o justo seria devolver R$ 10,00, e claro, passei minha opinião para frente e várias pessoas concordaram comigo quanto a isso.

Fui conversar com o organizador e seus colaboradores. Fui tachado por um deles de estar querendo me aparecer, me promover por causa de míseros R$ 5,00. Ora bolas, o problema não são os R$ 5,00. A questão é que comprei um produto (duas noites de festa) e só recebi a metade disso (uma noite de festa). Me senti enganado. O justo é eu receber devolva a metade do que paguei. Organizar festas é um negócio de risco, algumas vezes dá lucro e outras dá prejuízo. Quando dá lucro ninguém me chama para dividi-lo, então porque tenho que dividir o prejuízo?

Argumentaram comigo que apenas eu estava “fazendo confusão por causa de pouca coisa” e que todo mundo aceitava receber R$ 5,00. Ora, se a maioria das pessoas não tem a capacidade de lutar por seus direitos/interesses/idéias/opiniões, eu tenho. Respondo por mim. Se as pessoas não conseguem enxergar para fora da caverna, eu pelo menos tento. Me indispus por pouca coisa? Que seja. Hoje em dia o “ser passado para trás” está tão naturalizado, que se torna difícil “remar contra a maré”, e aqueles que o fazem, têm que agüentar o discurso ideológico que o tenta excluir como diferente, chato, encrenqueiro e etc. Apenas lutei pelo meu direito. Se isso é errado para algumas pessoas, me perdoem.

Já falei neste Blog uma vez, que é muito fácil ficar no sofá da sua casa, se indignando com a corrupção, o tráfico, a prostituição infantil, e etc durante o Jornal Nacional, e depois relaxar e se distrair com a novela diária. Isso tudo só existe porque não temos a capacidade de levantar do sofá e ir a luta. Por exemplo: você recebe uma fatura errada do seu telefone, mas é apenas R$ 5,00 e não vale a pena brigar por causa de R$ 5,00. A empresa quer mais é que você pense assim mesmo, afinal, se ela faz isso com todos os seus clientes e apenas uma meia-dúzia se indignar e entrar na justiça, ainda assim, houve lucro. Entendeu?

Ah, o leitor está curioso para saber se consegui meus R$ 10,00 de volta? Então, os organizadores bateram o pé no pagamento de R$ 5,00 e eu bati o pé que queria R$ 10,00. Houve até a chantagem do tipo: “se for pra pagar R$ 10,00 pra você e R$ 5,00 para o restante, eu não pago para ninguém e quem quiser que cobre na Justiça”, que foi complementado por um dos organizadores com esta pérola: “e vai ser culpa sua se ninguém receber! E eu vou mandar as pessoas ligarem para você!”. Culpa minha? Que liguem!

Final das contas, o organizador achou melhor realizar a festa que havia sido cancelada e quem ainda guardou seu passaporte, tem a entrada garantida. Se me senti “vencedor”? Sim, afinal, depois de mais de uma hora de conversa e acuado por quatro pessoas, consegui o que queria: fazer o meu passaporte valer o preço que eu paguei nele. É o exemplo prático de que ainda vale a pena lutar, mesmo que lhe rotulem de “advogadinho da mulekada!”.


Mais uma coisa: se vou na festa? Não sei. Também é meu direito decidir quanto a isso.


Obs: Para um maior entendimento deste texto, leia o post anterior.



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