30 outubro 2008

Ler deveria ser proibido!

Texto que circula pela Internet e possui um interessante montagem no YouTube. A primeira vez que o li foi em um periódico aqui da região, editado por um companheiro de luta. Vale a pena a leitura. A ironia da autora nos coloca diante de uma reflexão interessante. Ler deveria ser proibido!

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.
Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebida. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
Por Guiomar de Grammon.
Obs: A leitura deste texto é importante para o entendimento do próximo post.

7 Comentários:

Às 30/10/08 4:41 PM , Blogger Prof Toni disse...

Muito bom!

 
Às 31/10/08 12:32 AM , Blogger BLOG DE UM SEM-MÍDIA disse...

Cássio, parabéns pelo seu blog. Tomei a liberdade de copiar esse artigo para o meu blog http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com
Você é um garoto e eu estou próximo dos 70.No final da década de 60 e até 1989, como funcionário do ex-IBC, visitava tres vezes cada ano, sua cidade de Londrina. Tenho boas recordações dela. Ficava sempre no Hotel Coroados, se não me falha a memória. Será que ele ainda existe? Nunca mais voltei à Londrina e agora, através do seu blog terei notícias ela.
Sds Carlos Dória

 
Às 1/11/08 12:28 PM , Anonymous Agnelo Regis disse...

Este texto deve ser divulgado aos quatro ventos. Já fiz o meu papel.

www.cabrestosemno.com.br

Cabresto sem nó é o meu blog.
Abs,
Agnelo Regis

 
Às 12/11/08 1:14 PM , Blogger Alex disse...

Cassio enviei este escrito para o povo do Movimento e várias tem sido os comentários.
Parabens, camarada, continue firme com seu blog.
Inté.
Alex.

 
Às 20/11/08 9:22 PM , Anonymous Daniel disse...

ia dizer: "Incrível brilhante muito bom" mas apenas denomino:"Humano"

 
Às 30/11/08 8:00 PM , Anonymous Anônimo disse...

Infelizmente, o Presidente Lula falando para estudantes há pouco tempo,disse que fazer exercício é mais agradável que ler, o que representa um péssimo exemplo para a formação desses jovens.

 
Às 28/1/09 1:34 PM , Blogger Antonio Ozaí da Silva disse...

Parabéns!
Conheço o vídeo, mas foi ótima a idéia de publicar o texto.

Abraços e tudo de bom,

____________________
Antonio Ozaí da Silva
blog http://antonio-ozai.blogspot.com

 

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