29 setembro 2008

Para entender a crise:


Como ando muito atarefado tanto no Fórum quanto na Faculdade, limito-me a reproduzir aqui um texto muito bom sobre a "crise financeira". É um pouco extenso mas vale a pena ler.


1. É uma crise hipotecária
Na origem imediata da crise radica o mercado hipotecário dos Estados Unidos.
Como é sabido, no calor da enorme expansão do sector imobiliário gerou-se uma massiva oferta de hipotecas, das quais quase uma quinta parte foi concedida a famílias que só tinham rendimentos à justa para pagá-las, quando as taxas de juro estavam baixas.
À medida que as taxas de juro foram subindo e as hipotecas foram encarecendo começaram a dar-se as faltas de pagamento.
Isto afecta imediatamente os bancos que tinham concedido estas hipotecas, mas perante o que normalmente fazem com os títulos, a crise estendeu-se.
O que acontece é que os bancos que concedem estas hipotecas vendem, por sua vez, os títulos hipotecários nos mercados financeiros. Esta é a forma pela qual os bancos convertem o endividamento familiar num impressionante negócio, porque recebem o dinheiro que emprestaram mais os juros e, além disso, obtêm lucros negociando os títulos de crédito.
O inconveniente é que, como se passou neste Verão, quando começa a haver faltas de pagamento, porque os juros subiram ou porque diminuiu o rendimento familiar, gera-se um efeito em cadeia que é o que leva a que a crise se estenda.

2. Mas a crise não é somente hipotecária: é uma crise financeira
Quando se assina uma hipoteca cria-se um activo financeiro. Um "passivo" ou obrigação para o que deve o dinheiro e um "activo" ou direito para quem empresta, que é o banco. E o que o banco pode e geralmente faz, como acabo de assinalar, é comerciar esse activo. Por exemplo, segurá-lo ou vendê-lo.
O paradoxo, que logicamente então se produz, é que quanto maior for o risco do título menor seguro será e em princípio, mas precisamente por isso terá juros mais elevados e será mais rentável.
Essa é razão pela qual os títulos "lixo" (tecnicamente chamados "subprime"), isto é, os que têm bastante risco porque foram concedidos a famílias de baixos rendimentos, são precisamente os mais rentáveis e, em consequência, os mais apetitosos para os investidores que, em princípio, procurem preferencialmente a rentabilidade, que são os mais poderosos, os que podem assumir maior risco.
Os bancos norte-americanos colocaram no mercado milhões destes títulos, que foram adquiridos por bancos e investidores de todos os países.
É por essa razão que quando se desencadeia a crise hipotecária se desencadeia ao mesmo tempo uma crise financeira, já que o não pagamento crescente inicial afecta em seguida a segurança e rentabilidade dos grandes bancos e fundos de investimento internacionais. Quando se vêem afectados, não só perdem dinheiro como retiram os seus fundos dos mercados, ao ponto de travarem ou mesmo paralisarem os fluxos financeiros internacionais, em maior ou menor grau, em função da magnitude da "chicotada" original ou da sua participação no montante dos fundos afectados.
Gera-se assim uma crise de liquidez, não porque "faltem" meios de pagamento, mas porque são retirados. Isto acontece porque actualmente a imensa maioria dos meios de pagamento são "fictícios", isto é, papéis financeiros semelhantes aos títulos hipotecários que comentei acima, que estão vinculados principalmente a operações financeiras de carácter especulativo.

3. E além disso é uma crise que afecta a economia real
Ainda que a crise se desencadeie inicialmente no âmbito hipotecário, bancário ou financeiro, em seguida tem efeitos sobre a economia real (isto é, com a que tem a ver com a produção efectiva de bens e serviços e não com "papéis" financeiros).
O impacto sobre a economia real desta última crise manifesta-se por três razões principais.
Em primeiro lugar, porque a crise hipotecária afecta, logicamente, de modo muito directo o sector da construção que, como se sabe, foi uma das principais bases, senão a principal, da expansão económica dos últimos anos.
A crise hipotecária inicial provocará, sem margem para dúvidas, desemprego na construção e nas actividades que estão relacionadas com o sector imobiliário. E isso permite arriscar que, nos encontramos, desde que a crise se começou a manifestar mesmo de forma latente, numa nova fase de recessão económica.
Em segundo lugar, porque quando se manifesta a crise os bancos e os investidores reagem, como disse, retirando fundos do mercado e gerando falta de liquidez. Os bancos já não emprestam tão facilmente entre si e, logicamente, também reduzem a sua oferta de créditos aos consumidores e às empresas, que necessitam de recursos para gastar ou investir em actividades produtivas.
Portanto, a diminuição da liquidez nos circuitos financeiros afecta o financiamento da economia. A despesa total ressente-se e, como tal, o conjunto da actividade económica "real".
Em terceiro lugar, e como corolário do que disse antes, os bancos centrais confrontam-se com um dilema perverso: por um lado o que fazem (como fizeram) é pôr à disposição dos bancos centenas milhares de milhões de dólares (com uma generosidade que não têm quando os afectados pelas crises são os mais desfavorecidos do planeta). Mas, por outro, para favorecer a mobilização do capital, sobem as taxas de juro.
E sobem-nas porque a taxa de juro é, ao fim e ao cabo, a retribuição que os proprietários do dinheiro receberão por o porem à disposição de outros. E ao subi-las, o que os bancos centrais fazem é incentivar os possuidores de recursos financeiros a voltarem a colocar nos mercados os recursos que retiraram.
Mas a subida das taxas de juro tem um duplo efeito. Por um lado, favorece a mobilização do capital graças à sua maior rentabilidade. Por outro, encarecem o quase sempre imprescindível endividamento das empresas e das famílias. O primeiro enriquece os proprietários do capital que actuam preferencialmente na economia financeira e o segundo ajuda a que baixe de novo o investimento e o consumo, deteriorando como já disse o conjunto da actividade económica.

4. É uma crise global
Os fluxos financeiros são praticamente os únicos sobre os quais se pode dizer que estão completamente globalizados actualmente. Todas as operações financeiras realizam-se à escala internacional e a imensa maioria delas passam pelos paraísos fiscais, que se encontram estrategicamente situados em todos os fusos horários do planeta para que não fique nem um segundo do dia sem possibilidade de ser utilizado para realizar transacções.
Por isso, ainda que a crise se inicie no mercado hipotecário de um país, neste caso dos Estados Unidos, é indubitável que se estenderá por todo o globo terráqueo, pois os mercados financeiros são globais e os bancos e investidores que adquiriram os títulos a partir dos quais se desencadeou a chicotada inicial da crise estão e operam em todos os cantos da Terra.
O mais provável é que muitos desses bancos nem sequer saibam em que o grau é que estão a ser afectados pela crise. Os investimentos que realizam nos mercados financeiros são cruzados, opacos, de papel sobre papel e de estrutura piramidal, de modo que o detentor final de um título não sabe bem a que operação financeira original corresponde o que está a comprar ou a procurar vender, em operações que as novas tecnologias permitem realizar de modo vertiginoso e anónimo.
Pouco a pouco ir-se-á descobrindo que na crise estão implicadas muitas mais entidades bancárias (por exemplo em Espanha) do que as que no princípio reconheceram estar.

5. E talvez seja algo mais que uma crise hipotecária, financeira e global
O que não sabemos ainda sobre a presente crise é até que ponto se gerou uma crise de solvência bancária, com tudo o que aconteceu, hipótese que de forma nenhuma se pode afastar, pelo menos em alguns países como a Espanha.
Os bancos (e em geral os grandes possuidores de recursos financeiros) converteram-se no eixo em torno do qual gira a vida económica. Vêm obtendo lucros enormes e realizam investimentos gigantescos, alimentando a concentração bancária e empresarial e a especulação financeira. Directa ou indirectamente (graças ao seu financiamento) são os verdadeiros protagonistas das bolhas especulativas imobiliárias dos últimos anos, das aquisições especulativas de empresas e do vaivém das bolsas.
Mas agora, a questão põe-se em saber se, depois de terem colocado as suas reservas em tantos investimentos especulativos, estarão em condições de suportar uma crise de liquidez financeira, uma drástica diminuição da capacidade de endividamento das famílias e das empresas, com falta de pagamentos mais ou menos generalizados, ou uma explosão da bolha imobiliária que reduza o valor contável dos seus activos. Isto é, se dispõem de recursos financeiros suficientes para fazer frente aos pedidos efectivos ou para proporcionar os recursos financeiros que a vida económica requer.
Não é arriscado suspeitar que a crescente entrega de liquidez, que os bancos centrais realizaram, tenha como objectivo dissimular a irresponsabilidade bancária dos últimos anos.
De facto, é surpreendente a falta de informação, a opacidade e falta de transparência com que as autoridades económicas gerem a crise. Só estão preocupadas em tirar-lhe importância e em que não sejam divulgados os perigos, que é justamente o que convém fazer para escapar às responsabilidades perante uma crise de solvência bancária.
Pode acontecer que esteja a ocorrer algo mais que uma crise gerada por uma má gestão pontual da carteira dos grandes investidores, derivada dos problemas hipotecários das famílias que, por sua vez, gerou uma crise de liquidez. Podemos estar perante uma crise que afecte a própria estrutura patrimonial dos bancos, caso em que a actual situação teria, logicamente, consequências mais graves e a longo prazo.
Nesse caso, encontrar-nos-íamos perante uma crise gravíssima que obrigaria (para salvaguardar a rentabilidade e o status quo bancário) a estabelecer uma espécie de "área protegida global" ou localizada, onde se dê uma imobilização do dinheiro depositado nos bancos para favorecer (como se fez na Argentina) a recuperação da solvência bancária.
Na minha modesta opinião, actualmente esta última circunstância não é totalmente impossível, nem se pode desprezá-la. Há indícios disso: os aumentos de capital de alguns bancos, a intensidade com que tratam de atrair fundos (por certo, com activos de alto risco que poderiam agravar a médio prazo os problemas) e os pedidos de alguns dirigentes políticos, mais sensatos, para que sejam mudadas as regras que os reguladores (os bancos centrais principalmente) impõem, e que actualmente consistem em dar "terreno livre" aos fundos de investimento mais arriscados e mais voláteis, por detrás dos quais estão os próprios bancos.
Como se sabe, o funcionamento da actividade bancária baseia-se num princípio muito simples: recolhem fundos poupados, "reservam" uma parte para fazer frente à procura de pagamentos e com o resto fazem investimentos rentáveis.
Tradicionalmente, estes investimentos consistiam em emprestar dinheiro aos investidores reais, isto é, às empresas que criam bens e serviços ou aos consumidores. Mas nas últimas décadas a actividade bancária mudou e dedica-se a colocar a poupança, principalmente, em operações financeiras especulativas.
Graças ao apoio dos bancos centrais (que os apoiam quando necessitam) e ao ambiente geral de aceitação que este estado de coisas tem, os bancos puderam aumentar os seus negócios, mantendo uma percentagem de reservas cada vez mais pequena, o que logicamente aumenta a sua rentabilidade, como vem sucedendo, mas aumenta exponencialmente o risco e diminui a sua solvência.
A consequência de tudo isto é o extraordinário aumento da instabilidade do sistema e do risco assumido. A pergunta que actualmente é inevitável ser feita é se, nesta louca corrida ao lucro, os bancos não terão chegado ao paroxismo e ao risco excessivo.
Este é um assunto que até os próprios economistas liberais, mais sensatos e coerentes, reconhecem, quando criticam o actual regime da actividade bancária e propõem um sistema de reservas bancárias a 100%, para evitar o que poderia provocar um verdadeiro colapso económico.
Talvez seja demasiado atrevimento afirmar que nos encontramos nessa situação, ainda que eu também não me atreva a desprezá-la.
Nos próximos meses, quem sabe em poucas semanas, poderemos ir descobrindo o que efectivamente se está a passar na actividade bancária.

6. Há quem perca com a crise
As autoridades económicas costumam falar destas crises como se fossem parecidas com a avaria de uma canalização ou de um automóvel, sem fazer referência aos milhões de indivíduos que na realidade pagam, com os seus rendimentos, o seu trabalho, a sua segurança e bem-estar, a irracionalidade do sistema financeiro em que assentam as nossas economias.
Como em qualquer outra, nesta crise há quem saia prejudicado.
Em primeiro lugar, milhões de pessoas que, nos Estados Unidos e noutros países, perderam ou vão perder as suas habitações e as suas poupanças. Ou os seus rendimentos, pois não podemos esquecer que, cada vez que os bancos centrais sobem as taxas de juro, o que directamente acontece é uma transferência de rendimentos do bolso das famílias e das empresas endividadas para o dos banqueiros. Tão simples quanto isso.
Em segundo lugar, as economias mais débeis (da periferia, da África, América Latina ou dos países asiáticos mais empobrecidos). Quando se desencadeia a crise os capitais escasseiam e a sua falta nota-se especialmente nos territórios que estão mais necessitados de investimentos e de recursos. São, além disso, os que enfrentam com mais dificuldade os juros mais elevados.
Em terceiro lugar, a actividade económica real, as empresas e empresários que se dedicam à produção efectiva de bens e serviços, que se configuram, por sua vez, como um elo marginal em relação ao investimento financeiro. Isto significa que a crise é paga em termos de emprego, actividade económica e criação de riqueza.

7. Também há quem beneficie com a crise
Nem todos perdem com a crise. Pelo contrário, dela sairão fortalecidos os bancos e os grandes possuidores de capital.
Por um lado, há que ter em conta que os bancos só têm em títulos de risco uma pequena parte do seu negócio, de modo que a subida das taxas de juro se repercutirá favoravelmente na sua rentabilidade global.
Outro efeito da crise será a concentração da propriedade dos recursos financeiros e económicos. O que já se passou com os activos imobiliários.
Os grandes promotores, construtoras e bancos acumularam centenas de milhares de habitações e terrenos, que em grande parte financiaram de graça, devido à bolha para a qual eles próprios contribuíram. Calcula-se, por exemplo, que os bancos adquiriram cerca de metade do solo urbanizável, posto à venda nos últimos quinze anos.
Agora, com a crise hipotecária, voltarão a acumular activos imobiliários, pois serão eles que terão informação privilegiada para comprar barato às famílias em dificuldades ou aos pequenos construtores em dificuldades. Ou, simplesmente, a quem não tenha o menor pejo na execução dos seus créditos a famílias que não possam pagá-los, ficando com as suas habitações. E se o Estado (como até foi proposto nos Estados Unidos) der ajudas às famílias, para que paguem as hipotecas, a única coisa que estará a ser feita será garantir que os bancos continuam a receber as suas anuidades, mesmo com juros mais altos.
Finalmente, o efeito da crise hipotecária, da crise financeira e da crise real traduz-se, como é lógico que assim seja, na rentabilidade empresarial e nas cotações em bolsa. E também neste mercado se produzirão movimentos massivos de venda, que serão aproveitados pelos grandes investidores para acumular propriedades empresariais, concentrando-se assim o poder económico nos grandes bancos e nas grandes corporações.
A existência de prejudicados e beneficiados com estas crises demonstra, claramente, que não se trata de meras questões "técnicas", mas de verdadeiros assuntos políticos: são as autoridades políticas e económicas, fazendo, não fazendo ou deixando de fazer, que levam a que uns sejam prejudicados e outros beneficiados.

8. É uma crise que talvez não seja passageira
Como é fácil de deduzir do que venho dizendo, uma das causas da crise actual (como de outras semelhantes que aconteceram nas últimas décadas) está no facto de a economia mundial se ter virado cada vez mais para as trocas financeiras. Em lugar de servir de instrumento para as trocas de bens e serviços, o dinheiro converteu-se num objecto de troca. O que se compra e se vende são sobretudo meios de pagamento, títulos financeiros, papel por papel...
É o que se tem chamado de economia financiarizada que é intrinsecamente instável e propensa à crise (Uma análise mais detalhada encontra-se no meu livro "Pega o dinheiro e corre. A globalização neoliberal do dinheiro e das finanças". Editorial Içaria, Barcelona 2006).
Tem-se qualificado esta economia como "de casino", porque se baseia na especulação, porque nela predomina o risco desmedido e a incerteza (em troca, claro, de uma extraordinária rentabilidade) e isso leva logicamente a que as crises ocorram com inusitada frequência.
A generalização da especulação financeira obriga a que os sujeitos económicos estejam continuamente a caminhar na corda bamba, sem uma base real efectiva, como se estivessem em bicos de pés. Mas, como diz um velho provérbio chinês, ninguém pode andar em bicos de pés por muito tempo.
Por isso sabia-se que a crise hipotecária ia acontecer, mais dia, menos dia. Acabaria por chegar um momento, em que as famílias com rendimentos mais baixos mas com hipotecas abusivas não poderiam pagá-las. O nível de endividamento que existe actualmente na economia dos Estados Unidos, na espanhola e em muitas outras é materialmente insustentável. Acabou por estourar ali e rebentará noutros países.
A razão porque se consentiu uma situação propensa à crise é dupla.
Por um lado, já se disse que a crise tem os que a pagam, mas tem também grandes e privilegiados beneficiários. E estes têm suficiente poder para levar a que decorra a favor dos seus interesses, ainda que seja à custa de mais crise e problemas económicos para os restantes.
Por outro lado, conclui-se que é impossível evitar este tipo de crises no contexto financiarizado e global do capitalismo neoliberal dos nossos dias. Quando salta a faísca pode-se tentar mascarar, como quiseram fazer os bancos centrais, podem pôr-se remédios passageiros, mas é inevitável que a chama se estenderá por todas as economias e por todos os sectores da actividade económica.
Tudo isso quer dizer que o caldo de cultura da crise actual não é uma mera incidência hipotecária, que seria mais ou menos fácil de atalhar, mas o modo de funcionamento da economia capitalista dos nossos dias no seu conjunto. Algo que é muito mais difícil de controlar, sobretudo, quando não há nenhuma intenção de o fazer.
Em consequência, se tivesse de apostar, eu apostaria nuns largos meses de profunda instabilidade, de sobressaltos e de perda de vigor económico. O sector imobiliário, em primeiro lugar, vai estourar proximamente nos países, como a Espanha, onde se geraram bolhas especulativas; e a seguir a ele, também em alguns âmbitos do sector bancário e financeiro. No seguimento disto é inevitável que venha uma nova fase recessiva, que pode ser duradoura se não se adoptarem medidas de choque rápidas e firmes, principalmente para o aumento da despesa.
Infelizmente, este último hoje não tem, geralmente, outra leitura que não seja a militar, como factor anti-recessivo, o que permite prever que, se a crise se aprofundar, voltarão a ouvir-se ruidosamente os tambores da guerra.
Oxalá me engane.

9. É uma crise alimentada e consentida pelos bancos centrais
É de grande importância e muito relevante salientar que os bancos centrais foram dos principais responsáveis pela crise hipotecária e financeira que estamos a viver.
Podemos dizer que os bancos centrais são responsáveis pela crise, pelo menos, por três razões fundamentais.
Em primeiro lugar, porque lhes corresponde o trabalho de vigiar a situação da actividade bancária, adverti-la do risco e prevenir as suas consequências. E têm meios e poder suficiente para levá-la a cabo... se quiserem.
A sua "vista grossa" perante o verdadeiramente aberrante e irracional comportamento do mercado hipotecário, a sua indiferença perante o sofrimento económico que os bancos impõem a milhões de famílias, a sua "mão aberta" para consentir que a banca actue com plena liberdade para impor condições draconianas aos créditos e empréstimos, ou a sua cegueira perante a deterioração da solvência favoreceram a génese da crise hipotecária, como primeiro e imediato detonador dos problema económicos e financeiros que estamos a viver.
Até alguns governos e líderes mundiais vieram advertindo, desde há meses, do risco que se estava a acumular nos fundos de investimento especulativos, do perigo global que isso arrastava e da necessidade de regulá-los de outra forma, para garantir maior segurança à economia mundial. Mas os bancos centrais, que são quem dispõe da melhor informação sobre essa realidade e quem melhor conhecia o problema que se estava a gerar, calaram-se, consentindo que durante todo este tempo se acumulasse a volatilidade e o risco de recessão mundial, provocada pela labareda originada nos fluxos financeiros.
Em segundo lugar, porque os bancos centrais são os garantes do regime de hipertrofia financeira e de privilégio dos fluxos financeiros sobre a economia real existente. Estas instituições e a política que praticam constituem o principal sustentáculo da especulação financeira e do privilégio que estas actuações têm em comparação com a actividade económica real orientada para a criação de riqueza.
É óbvio que a política monetária é um instrumento essencial da política económica geral para conduzir a actividade económica. Mas, nas mãos dos bancos centrais, é apenas aplicada para controlar os preços (algo que beneficia sobretudo os ricos e o capital, porque graças a isso garantem salários reduzidos e mais alta retribuição ao capital financeiro), esquecendo-se de qualquer outro objectivo, como o crescimento da actividade ou do emprego. Já assinalei que essa financiarização é o verdadeiro caldo de cultura destas crises.
Finalmente, porque os bancos centrais não só se limitam a actuar desta forma mas também, para cúmulo, atam de pés e mãos os governos, que não têm capacidade de manobra para adoptar medidas que poderiam levar as economias por outros caminhos.
Os bancos centrais, escravos de uma ortodoxia sem qualquer base científica (pois nem um só dos postulados no qual se baseia a política monetária e económica que defendem está demonstrado como mais conveniente ou adequado) não agem nem deixam agir na economia dos nossos dias: como a crise destas últimas semanas está a demonstrar, os bancos centrais tornam-se meros instrumentos ao serviço da manutenção do status quo bancário e do poder monetário e financeiro global.
O seu papel perverso é já tão estrepitosamente claro que até alguns governantes de direita mais lúcidos, como Sarkozy, começam a denunciá-lo. É muito difícil que um pirómano passe despercebido, quando quer actuar como bombeiro.

10. E é uma crise das que se podia evitar com outras políticas e com outros objectivos sociais.
Para terminar, é preciso perguntar se as crises, como a que estamos a viver, são inevitáveis ou se, pelo contrário, há meios para evitá-las.
Na minha opinião, será muito difícil que deixem de existir no contexto do capitalismo financiarizado dos nossos dias. Como disse antes, são consubstanciais com a lógica compulsiva do lucro e a hipertrofia dos fluxos financeiros e actividades especulativas, que são intrinsecamente instáveis e voláteis.
Mas isso não quer dizer que não tenham remédio. Há fórmulas e instrumentos suficientes para que a sociedade não tenha que suportar os seus custos tremendos e para que as economias não se vejam submetidas à quebra constante, ao esbanjamento, à ineficiência e ao bloqueio permanentes.
No quadro breve destas linhas não posso desenvolver extensamente uma posição alternativa, do que hoje em dia já começamos a dispor na literatura económica não neoliberal. Limitar-me-ei a apresentar, quase a título de exemplo e sem qualquer pretensão de ser exaustivo, as que considero mais importantes e significativas.
- Para evitar as crises hipotecárias é preciso evitar que a habitação se converta num activo criado para gerar lucro através da acumulação e da especulação. E, por conseguinte, que os seus instrumentos de financiamento se transformem na fonte que nutre a actividade dos mercados financeiros secundários intrinsecamente instáveis e geradores de crises. Os governos têm meios para assegurar que as habitações sejam o que devem ser, soluções do problema social da habitabilidade e não activos para canalizar as poupanças dos ricos e para criar lucros especulativos. Para isso podem estabelecer-se reservas de solo, controlos de preços e políticas impositivas que desincentivem a especulação com bens sociais básicos. Pode e deve romper-se o vínculo entre o mercado da habitação e os fluxos financeiros, garantindo fontes de financiamento estáveis e exequíveis não vinculadas aos mercados secundários que, como temos visto, são a fonte das crises financeiras.


- Para evitar as crises financeira nem sequer seria necessária, ainda que fosse desejável, uma autêntica regulação financeira internacional que acabasse com os mecanismos que transmitem a especulação e a volatilidade a todas as actividades económicas. Talvez bastasse incorporar, como disse há anos James Tobin, pequenos mecanismos que dificultem as finanças inter-nações para desincentivar esse tipo de lógica financeira. Pequenos mecanismos que deveriam ter a forma de impostos e taxas internacionais, erradicação dos paraísos fiscais, transparência e controlo e, sobretudo, criação de fontes de crédito públicas, que garantam o funcionamento da actividade económica independentemente dos desequilíbrios e da volatilidade dos mercados.
- Para evitar as crises de solvência bancária e para limitar o irracional e excessivo poder bancário, que provoca crise e desequilíbrios constantes, é preciso estabelecer um sistema baseado na plena cobertura das reservas bancárias.
- Para evitar que crises localizadas se convertam perigosamente em crises globais é preciso, sobretudo, acabar com o regime de plena liberdade de movimentos do capital, um regime que só é necessário e se justifica para garantir maiores proveitos aos proprietários de capital, pois não há nenhuma razão científica que permita assegurar que, dessa forma, se alcançam maiores resultados na produção de bens e serviços e na actividade económica em geral.
- Para evitar os efeitos das crises financeiras sobre a economia real é necessário, logicamente, evitá-las, aplicando os mecanismos que estou a assinalar e, sobretudo, controlar a hipertrofia dos fluxos financeiros e garantir fontes de financiamento à vida económica, que não estejam na contingência da lógica do lucro, mas em função das necessidades sociais.
- Para evitar que estas crises aumentem as desigualdades, com milhões de afectados e poucos beneficiados, é preciso restabelecer o valor social dos impostos, criar um autêntico sistema fiscal internacional e mecanismos internacionais de redistribuição do rendimento.
- Para evitar que os bancos centrais continuem exclusivamente ao serviço dos mais poderosos e escravos de uma retórica económica equivocada, que ajuda ao desencadear da recessão e das crises económicas, é preciso modificar a sua natureza, submetê-los ao controlo público e das instituições representativas e garantir que a política monetária se comprometa efectivamente com objectivos económicos, como o pleno emprego, a equidade e o efectivo bem-estar social.
Naturalmente, tudo isto, que é perfeitamente possível, não pode ser levado à prática se os cidadãos não forem capazes de negar o actual estado de coisas, de impor a sua vontade sobre a dos mercados onde governam os poderosos e para isso é preciso não só que estejam conscientes da natureza real destes problemas económicos, mas também que tenham o poder suficiente para converter os seus interesses em vontades sociais e estas em decisões políticas. Isto é, que as maiorias cidadãs possam fazer precisamente aquilo que, desde tempos imemoriais, só os mais ricos e poderosos vêm fazendo.

* Juan Torres López nasceu em Granada em 1954, doutorado em Ciências Económicas e empresariais e professor catedrático de Economia Aplicada na Universidade de Málaga, desde 1986. Foi também Secretário Geral de Universidades e Investigação na Junta da Andaluzia

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