28 agosto 2008

Teoria Política do Socialismo: o Seminário!


Como dito no post abaixo, participei do II Seminário Científico: Teoria Política do Socialismo – marxismo e movimentos sociais na virada do milênio, ocorrido na UNESP/Marília esta semana, com a participação de grande público e debates que gostaria de apontar aqui.

A mesa-redonda de abertura tinha como tema: Marxismo e Socialismo no século XXI, com as participações de Antonio Carlos Mazzeo, Armando Boito Júnior e do italiano radicado no México Massimo Modonesi. Armando Boito argumentou pelo reexame do legado Socialista no século XX uma vez que as circunstâncias são outras, a necessidade de se criar uma teoria da transição socialista, além de apresentar, de forma polemicam a Revolução Russa como sendo uma Revolução Burguesa, e que Lênin traiu os ideais socialistas diante da realidade russa. Antonio Mazzeo, salientou a importância do processo histórico na construção Socialista, além de apresentar exemplos e abordagens sobre o presente, os movimentos sociais e o capitalismo. Por fim, Massimo Modonesi, numa das melhores intervenções, argumentou que o Socialismo não é um modelo, mas sim um processo e que no século XXI ele ainda está por ser criado no movimento, nas lutas, de baixo para cima, na busca de uma forma original em consonância com a realidade específica. Para ele, a América Latina é a região da esperança Revolucionária, e ao final apresentou a Bolívia como mais Socialista do que a Venezuela, sob o argumento de que no país de Evo, o protagonismo popular é muito mais que no de Chávez.

A mesa da primeira noite teve como tema: Marxismo e Movimentos Sociais. Maria Orlândia Pinassi apresentou os novos desafios dos movimentos sociais da atualidade, a necessidade de se fazer a auto-crítica, bem como o caráter negativo da institucionalização dos movimentos, bem como a necessidade de união de todos os movimentos sociais, sob pena de fragmentação da luta e exclusão mútua. Gonzalo Adrian Rojas, no mesmo sentido, comentou as dificuldades dos movimentos sociais em lidarem e construírem alternativas políticas, além da falta de homogeneidade da luta. Jair Pinheiro tratou da questão dos movimentos sociais urbanos, em especial o Movimento dos Sem-teto e o espaço urbano como mercadoria.

Na terça pela manhã, foi a vez da mesa: Marxismo e Militares. Marly Vianna apresentou o movimento tenentista e também suscitou um debate sobre o que é ser de esquerda. João Quartim de Moraes, apresentou aspectos da revista do Clube Militar, Norberto Bobbio como “inimigo” da esquerda e argumentou que ser de esquerda depende muito do contexto histórico, mas sempre há uma contraposição clara (direita). Paulo Ribeiro da Cunha comentou acerca das anistias ocorridas ao longo da história do Brasil, onde os anistiados militares de direita foram reintegrados ao exército, enquanto os de esquerda não. Salientou a importância dos militares de esquerda na campanha “O Petróleo é nosso”, bem como que a Coluna Prestes é estudada por todos os exércitos do mundo, menos pelo brasileiro.

Na tarde de terça-feira, talvez o momento mais produtivo para uma Teoria Socialista do século XXI. Um colóquio com as presenças de Massimo Modonesi e Andrea Catone. Modonesi, historiador das esquerdas na América Latina, argumentou pela complexidade da América Latina, pela necessidade de um projeto marxista e construção de “intelectuais orgânicos” e um “marxismo na práxis”, além da união de noções de subalternidade, antagonismo e autonomia. Catone, italiano, falou da fraqueza do movimento operário europeu, bem como da teoria marxista, além de uma excelente abordagem sobre a história política da Itália, desde o pós-segunda guerra até os dias Berlusconi, e a atuação do PCI, Eurocomunismo, sua extinção e tentativa de re-fundação, o governo Romano Prodi, etc, mas ao final deixou a esperança de que é sim possível recomeçar, desde que haja um resgate do marxismo.

A noite a mesa foi Marxismo e a Questão Nacional. Primeiro José Rodrigues Mao Júnior, vocalista da banda Garotos Podres, professor universitário e autor de estudos sobre Cuba, debateu sobre a idéia de nacionalismo, dizendo que na América Latina não existe uma “Burguesia Nacional” e apresentando aspectos da Revolução Cubana. Andréa Catone relembrou que para o marxismo o proletariado não tem pátria, que na dominação imperialista surge a possibilidade de articulação da luta, mesmo que nacional mas pensando em uma perspectiva internacional, bem como que no final do século XX, o nacionalismo é extremamente reacionário, contra os interesses da classe operária. Marcos Del Roio fez uma abordagem mais acadêmica dos dias atuais, salientando a nova ofensiva do capital, a financeirização, a difusão da informação, os veículos ideológicos de comunicação que vêm tendo êxito na desconstrução da consciência de classe do operariado. Os sindicatos pelegos, sem estratégia de luta e possibilidade de organização acabam ratificando o discurso capitalista. Ao final, o professor Del Roio, numa perspectiva que corroboro, salientou que na difusão/fragmentação de grupos sociais atuais, não existe mais uma “classe operária” clássica, mas sim um novo operariado que pode ser chamado de “classe subalterna” que abarca uma maior quantidade de grupos sociais, bem como, a necessidade de re-fundação da práxis no sentido do “Moderno Príncipe”.

Na sexta pela manhã a mesa ficou com o tema: Marxismo e Movimento Operário. Valério Arcary apresentou como irreconciliável a luta entra Proletária e Burguesia, lembrando que Jacob Gorender chegou a questionar o caráter revolucionário do proletariado, mas Arcary ainda deixou uma esperança otimista, de que o proletariado pode sim ser revolucionário e que é inegável a sua luta ao longo do século XX, bem como de que há várias maneiras de ser revolucionário, até porque o proletariado se transforma junto com o capitalismo. Ramon Pena Castro apresentou aspectos do operariado russo durante a União Soviética e no seu pós, mostrando que hoje a repressão ao movimento operário no país é brutal, que os trabalhadores não conhecem o que é 13º salário ou mesmo participação nos lucros, mesmo na multinacional Ford, mas atualmente o PC russo não tem inserção na classe operária.

Minha apresentação foi na quarta pela tarde, e em seguida já vim embora, não pude acompanhar a última mesa do evento, intitulada Marxismo e novo internacionalismo que contaria com as presenças de Eliel Machado, Carlos Montanõ e Gilberto Lopez y Rivas.

O balanço do Seminário é altamente positivo, pude aprender muita coisa, conhecer novas e velhas discussões, ser apresentado para pesquisadores e professores de diversos lugares, etc. Mas minha única consideração negativa foi a de, uma vez que estava-se discutido uma nova Teoria Política para o Socialismo no Século XXI, a falta de expositores vindos diretamente da Bolívia e Venezuela, afim de apresentar e debates as suas práxis.

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