31 agosto 2008

Nem tudo está perdido!


Algumas frases me deixam puto: “Você se alimentou hoje? Agradeça ao produtor rural.” ou “Sabe ler? Agradeça ao professor.” São de um péssimo gosto, uma tentativa de elitizar as profissões, como se uma fosse melhor que a outra. Você já viu por aí alguma frase do tipo: “A cidade está limpa? Agradeça ao gari” ou então “Encheu o tanque do carro? Agradeça ao cortador de cana”. Na sociedade cada profissão tem o seu valor. De que adianta todo mundo ser médico, por exemplo, se não tiver o varredor de rua?

Mas há algumas coisas que vemos por aí, que nos deixam a impressão de que nem tudo está perdido no mundo de hoje, que existem alternativas e pessoas que sabem ler de forma crítica a realidade.

Na faculdade onde estudo, colaram um adesivo da FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) na porta de uma sala com a frase “Você se alimentou hoje? Agradeça ao produtor rural”. No mínimo foi o filhinho de algum latifundiário. Mas eis que alguém fez aquilo que eu sempre tive vontade de fazer quando vejo um adesivo deste. Agora o adesivo está assim: “Você se alimentou hoje? Agradeça ao PEQUENO produtor rural”.

É isso mesmo. Existe uma diferença na produção entre o grande produtor rural e o pequeno. O grande, aquele com imensas áreas plantas e maquinários produz para exportação, enquanto o pequeno produz para o consumo interno. A Agricultura Familiar é a grande responsável por colocar alimento na mesa do brasileiro, aliás, "nunca na história deste país a Agricultura Familiar recebeu tanto apoio quanto no Governo Lula".

Já me reportei sobre este tema aqui no Blog. “A Verdade sobre quem produz comida neste país”.

28 agosto 2008

Teoria Política do Socialismo: o Seminário!


Como dito no post abaixo, participei do II Seminário Científico: Teoria Política do Socialismo – marxismo e movimentos sociais na virada do milênio, ocorrido na UNESP/Marília esta semana, com a participação de grande público e debates que gostaria de apontar aqui.

A mesa-redonda de abertura tinha como tema: Marxismo e Socialismo no século XXI, com as participações de Antonio Carlos Mazzeo, Armando Boito Júnior e do italiano radicado no México Massimo Modonesi. Armando Boito argumentou pelo reexame do legado Socialista no século XX uma vez que as circunstâncias são outras, a necessidade de se criar uma teoria da transição socialista, além de apresentar, de forma polemicam a Revolução Russa como sendo uma Revolução Burguesa, e que Lênin traiu os ideais socialistas diante da realidade russa. Antonio Mazzeo, salientou a importância do processo histórico na construção Socialista, além de apresentar exemplos e abordagens sobre o presente, os movimentos sociais e o capitalismo. Por fim, Massimo Modonesi, numa das melhores intervenções, argumentou que o Socialismo não é um modelo, mas sim um processo e que no século XXI ele ainda está por ser criado no movimento, nas lutas, de baixo para cima, na busca de uma forma original em consonância com a realidade específica. Para ele, a América Latina é a região da esperança Revolucionária, e ao final apresentou a Bolívia como mais Socialista do que a Venezuela, sob o argumento de que no país de Evo, o protagonismo popular é muito mais que no de Chávez.

A mesa da primeira noite teve como tema: Marxismo e Movimentos Sociais. Maria Orlândia Pinassi apresentou os novos desafios dos movimentos sociais da atualidade, a necessidade de se fazer a auto-crítica, bem como o caráter negativo da institucionalização dos movimentos, bem como a necessidade de união de todos os movimentos sociais, sob pena de fragmentação da luta e exclusão mútua. Gonzalo Adrian Rojas, no mesmo sentido, comentou as dificuldades dos movimentos sociais em lidarem e construírem alternativas políticas, além da falta de homogeneidade da luta. Jair Pinheiro tratou da questão dos movimentos sociais urbanos, em especial o Movimento dos Sem-teto e o espaço urbano como mercadoria.

Na terça pela manhã, foi a vez da mesa: Marxismo e Militares. Marly Vianna apresentou o movimento tenentista e também suscitou um debate sobre o que é ser de esquerda. João Quartim de Moraes, apresentou aspectos da revista do Clube Militar, Norberto Bobbio como “inimigo” da esquerda e argumentou que ser de esquerda depende muito do contexto histórico, mas sempre há uma contraposição clara (direita). Paulo Ribeiro da Cunha comentou acerca das anistias ocorridas ao longo da história do Brasil, onde os anistiados militares de direita foram reintegrados ao exército, enquanto os de esquerda não. Salientou a importância dos militares de esquerda na campanha “O Petróleo é nosso”, bem como que a Coluna Prestes é estudada por todos os exércitos do mundo, menos pelo brasileiro.

Na tarde de terça-feira, talvez o momento mais produtivo para uma Teoria Socialista do século XXI. Um colóquio com as presenças de Massimo Modonesi e Andrea Catone. Modonesi, historiador das esquerdas na América Latina, argumentou pela complexidade da América Latina, pela necessidade de um projeto marxista e construção de “intelectuais orgânicos” e um “marxismo na práxis”, além da união de noções de subalternidade, antagonismo e autonomia. Catone, italiano, falou da fraqueza do movimento operário europeu, bem como da teoria marxista, além de uma excelente abordagem sobre a história política da Itália, desde o pós-segunda guerra até os dias Berlusconi, e a atuação do PCI, Eurocomunismo, sua extinção e tentativa de re-fundação, o governo Romano Prodi, etc, mas ao final deixou a esperança de que é sim possível recomeçar, desde que haja um resgate do marxismo.

A noite a mesa foi Marxismo e a Questão Nacional. Primeiro José Rodrigues Mao Júnior, vocalista da banda Garotos Podres, professor universitário e autor de estudos sobre Cuba, debateu sobre a idéia de nacionalismo, dizendo que na América Latina não existe uma “Burguesia Nacional” e apresentando aspectos da Revolução Cubana. Andréa Catone relembrou que para o marxismo o proletariado não tem pátria, que na dominação imperialista surge a possibilidade de articulação da luta, mesmo que nacional mas pensando em uma perspectiva internacional, bem como que no final do século XX, o nacionalismo é extremamente reacionário, contra os interesses da classe operária. Marcos Del Roio fez uma abordagem mais acadêmica dos dias atuais, salientando a nova ofensiva do capital, a financeirização, a difusão da informação, os veículos ideológicos de comunicação que vêm tendo êxito na desconstrução da consciência de classe do operariado. Os sindicatos pelegos, sem estratégia de luta e possibilidade de organização acabam ratificando o discurso capitalista. Ao final, o professor Del Roio, numa perspectiva que corroboro, salientou que na difusão/fragmentação de grupos sociais atuais, não existe mais uma “classe operária” clássica, mas sim um novo operariado que pode ser chamado de “classe subalterna” que abarca uma maior quantidade de grupos sociais, bem como, a necessidade de re-fundação da práxis no sentido do “Moderno Príncipe”.

Na sexta pela manhã a mesa ficou com o tema: Marxismo e Movimento Operário. Valério Arcary apresentou como irreconciliável a luta entra Proletária e Burguesia, lembrando que Jacob Gorender chegou a questionar o caráter revolucionário do proletariado, mas Arcary ainda deixou uma esperança otimista, de que o proletariado pode sim ser revolucionário e que é inegável a sua luta ao longo do século XX, bem como de que há várias maneiras de ser revolucionário, até porque o proletariado se transforma junto com o capitalismo. Ramon Pena Castro apresentou aspectos do operariado russo durante a União Soviética e no seu pós, mostrando que hoje a repressão ao movimento operário no país é brutal, que os trabalhadores não conhecem o que é 13º salário ou mesmo participação nos lucros, mesmo na multinacional Ford, mas atualmente o PC russo não tem inserção na classe operária.

Minha apresentação foi na quarta pela tarde, e em seguida já vim embora, não pude acompanhar a última mesa do evento, intitulada Marxismo e novo internacionalismo que contaria com as presenças de Eliel Machado, Carlos Montanõ e Gilberto Lopez y Rivas.

O balanço do Seminário é altamente positivo, pude aprender muita coisa, conhecer novas e velhas discussões, ser apresentado para pesquisadores e professores de diversos lugares, etc. Mas minha única consideração negativa foi a de, uma vez que estava-se discutido uma nova Teoria Política para o Socialismo no Século XXI, a falta de expositores vindos diretamente da Bolívia e Venezuela, afim de apresentar e debates as suas práxis.

22 agosto 2008

Teoria Política do Socialismo:


Sei que este Blog já foi atualizado com mais freqüência. Peço minhas desculpas aos leitores que sentem a falta de textos diários, mas é que os dias têm sido curtos diante dos inúmeros compromissos acadêmicos e profissionais.

Esta semana estarei na UNESP de Marília, participando do
II Seminário Científico Teoria Política do Socialismo, e terei a satisfação/responsabilidade de apresentar uma comunicação oral em um Seminário de tamanha grandeza.

O título da minha comunicação é: “Gramsci no Brasil: um revolucionário?”, onde abordo algumas questões estudas no meu Projeto de Iniciação Científica em história intitulado “Uma introdução ao pensamento gramsciano no Brasil e na América Latina” que buscou a recuperar a recepção de Antonio Gramsci em nosso continente, tanto na militância quanto na academia e como suas chaves conceituais foram apropriadas e podem contribuir para uma nova teoria política latino-americana.

Como o resumo expandido será publicado nos anais do encontro, assim que possível eu o posto aqui no Blog também.

20 agosto 2008

Os lucros da Guerra:


Somente o acesso irrestrito à rede mundial de computadores pode nos fornecer informações que nunca obteríamos pelos veículos tradicionais de comunicação, em especial os grandes conglomerados brasileiros do tipo Abril e Globo.

Estes dias tive a oportunidade de ver o documentário “Iraque a Venda – os lucros da guerra”. Nele o diretor apresenta uma “guerra do Iraque privada”, onde o exército é muitas vezes substituído por empresas terceirizadas, contratadas pelo governo estadunidense, que não têm qualquer responsabilidade na morte de seus “funcionários” ou mesmo com a qualidade do serviço.

Ex-funcionários que conseguiram retornar com vida do Iraque dão seus depoimentos, e o que vemos é chocante. Pessoas e famílias inteiras foram enganadas com a história de que estariam “ajudando a reconstruir o Iraque”, e acabaram abandonadas à sorte pelas corporações que os contratou.

O pior de tudo, é que a cúpula do poder nos Estados Unidos é conivente com esta prática e quem paga a conta é contribuinte estadunidense, e claro, os mortos que foram usados para que algumas poucas pessoas lucrassem.

É interessante o caso da Halliburton, de propriedade do vice-presidente Dick Cheney, uma das maiores empresas no ramo petrolífero que está “ajudando a reconstruir o Iraque”. Halliburton é a mesma empresa que “sumiu” com os notebooks da Petrobrás.

Interessante também é ver o caso de corporações que “dão apoio” logístico ao exército. Fazem a comida, lavam a roupa, fornecem água potável, constroem as tentas. Tudo de péssima qualidade e a preços superfaturados.

Muitas outras informações constam no documentário. Se alguém se interessar pode fazer o download aqui.

17 agosto 2008

Quem foi... John Locke?


John Locke (1632-1704) é festejado como o “pai do pensamento” liberal. Segundo o que aprendemos na escola, Locke fazia forte oposição ao autoritarismo político e religioso. Teria sido um dos primeiros a lançar as bases de uma sociedade sem ingerência do Estado. Seu pensamento foi importante na luta contra o absolutismo. Não quero aqui dizer que Locke não tenha sido importante nas transformações da sociedade ocidental, mas existe um outro lado de sua vida que não conhecemos.

No texto “A educação para além do capital”, o húngaro István Mészáros apresenta alguns aspectos da vida e do pensamento de Locke que eu mesmo não conhecia e gostaria de compartilhar.

Locke era um verdadeiro latifundiário. Não vivia nas suas terras. Era funcionário público e ganha muito bem para isso. Cerca de 1.500 libras como membro da Junta Comercial e não hesitou em propor que os pobres ganhassem “um centavo por dia”. Ao final de sua vida, Locke possuía um patrimônio invejável até mesmo para prósperos comerciantes londrinos. Como se vê, sua vida foi “mamar nas tetas do Estado”.

Detentor de grande patrimônio, Locke deu mostras de seu pensamento “liberal” ao sugerir que, enquanto aos criminosos reincidentes cortava-se “apenas” metade da orelha, propões que já aos primários fossem cortadas as duas.

Como a grande maioria dos homens ricos, Locke odiava/temia os pobres. Nas suas palavras: “o crescimento do número de pobres (...) nada mais é do que o relaxamento da disciplina e a corrupção dos hábitos; a virtude e a diligência são como companheiros constantes de um lado, assim como o vício e a ociosidade estão do outro. Portanto, o primeiro passo no sentido de fazer os pobres trabalhar (...) deve ser a restrição de sua libertinagem mediante a aplicação estrita das leis estipuladas (por Henrique VIII e outro) contra ela”.

Como se vê, o “pai dos liberais” “esquece” dos cercamentos, e acusa os pobres de serem pobres porque são vadios. Mas é claro, como representante de uma classe, seu discurso tem que ser mesmo neste sentido. É o que Marx chama de “a lenda do pecado original”. Lenda esta que acaba internalizada pelas instituições de ensino que estão a serviço do capital.

09 agosto 2008

Vota Brasil 02:


Como me referi em post anterior, época de eleição aparece todo tipo de candidato, e muitos não estão minimamente preparados para o cargo. Exemplo recente pôde ser visto no debate para a Prefeitura de Curitiba, realizado pela Band, onde o candidato Lauro Rodrigues do PT do B não conseguiu articular uma idéia sequer.

O vídeo de Lauro Rodrigues já é fenômeno tanto nos Blogs políticos como nos de humor. Mostrando-se totalmente despreparado para o cargo, não conseguiu responder nenhuma das perguntas a ele feitas, repetindo sempre “sua proposta” de “cartão verde” do transporte público municipal e o "cartão cidadão" para os postos de saúde.

É claro que Lauro Machado não tem a mínima chance no pleito eleitoral curitibano, mas o que me preocupa é que no interior do país, existem vários “Lauro Rodrigues” como candidatos, e o pior, com grandes chances de vitória.

Pessoas que não sabem articular uma idéia, não sabem sentar em uma mesa de negociação, não tem propostas concretas, não conhecem as leis federais, estaduais, quiçá as municipais, as possibilidades orçamentárias, etc. Tais pequenos municípios não podem contar com um debate televisionado e com isso distinguir o joio do trigo, assim, a força do dinheiro acaba gerando prefeitos despreparados para a lida com a coisa pública.

Vejam o
vídeo do Lauro Rodrigues, é muito divertido, e o comparem com os candidatos da sua cidade. Afinal, como diz a excelente propaganda do TSE, uma nova oportunidade só virá daqui a quatro anos, portanto, você não pode perder esta.

06 agosto 2008

Notícias que você não vê na TV 02:


Eu não li o livro, mas o filme “O caçador de pipas”, apesar de ser bonitinho e ao mesmo tempo “corrido”, como a maioria das adaptação da literatura para o cinema, me deixou a impressão de uma bela propagando ideológica do tipo: “nós estadunidenses estamos fazendo de tudo para salvar o Afeganistão das mãos do regime sangrento dos Talibãs.”

Pois bem, não quero entrar no mérito das qualidades do regime Talibã, até porque não as conheço, mas também não podemos esquecer que os próprios estadunidenses apoiaram os Talibãs quando da invasão do Afeganistão pelos Soviéticos. Algo parecido ocorreu no Iraque, quando os Estados Unidos financiaram e armaram Saddam no início dos anos 1980.

Quero neste texto apresentar alguns números e fatos que talvez não apareçam com a freqüência e o espaço merecidos. No dia 06 de julho, o exército estadunidense bombardeou “por engano”, uma festa de casamento no Afeganistão e matou “apenas” 47 civis inocentes. Além desta, outras quatro festas foram arrasadas por bombardeiros nos últimos dias, sem falar numa escola, onde morreram 9 pessoas e uma casa de paredes de barro e teto de palha onde morreram 8 afegãos.

Apenas no primeiro semestre de 2008 já foram lançadas em solo afegão um total de 1.853 bombas de 200 a 900 quilos cada uma. Mais do que o total de bombas de 2006 e mais da metade de 2007. Mas isso você não vê na TV e não lê na Veja. Por que será?

A fonte está em inglês, e o restante da reportagem comenta que Barack Obama será o Tony Blair estadunidense. Torçamos para que isso não aconteça.

02 agosto 2008

Notícias que você não vê na TV:


Alguns leitores deste Blog sentiram a ausência de meus comentários acerca da operação da Polícia Federal que prendeu figuras do porte de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta. Pois bem, não queria cair na mesmice de comemorar a operação e criticar o STF pelos Hábeas Corpus, até porque, como disse o próprio Dantas nas escutas telefônicas realizadas, isso já era óbvio, afinal, “lá em cima ele resolve fácil!”.

Pois bem, mas o jornalista Luis Nassif fez publicar em seu Blog na Internet um trecho do relatório da Polícia Federal que, com certeza, você não viu na Globo, muito menos leu na Veja.

A Polícia Federal acusa a Revista Veja e o sua “anta” Diogo Mainardi de estarem colaborando com a instituição criminosa de Daniel Dantas. Segundo a PF, Veja e Mainardi plantaram em suas páginas notícias favoráveis ao grupo de Dantas, a “pedido” deste.


Leia o trecho do relatório no Blog do Luis Nassif.



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