17 janeiro 2008

A cruzada da humanidade em busca da felicidade


O Filme de Charles Chaplin foi lançado no ano de 1936, ou seja, época posterior à quebra da Bolsa de Valores de Nova York, período conhecido como “grande depressão”, marcado pelo desemprego em massa da população e diminuição da produção industrial, fechamento de fábrica, falências e etc. “Tempos Modernos” é uma crítica feroz à sociedade capitalista de seu tempo, não é a toa que Chaplin foi perseguido pelo Estado estadunidense acusado de ser comunista.

A Película é fantástica já sem suas primeiras cenas. No início, um grande relógio é mostrado, em uma visível crítica ao modo de produção do “time is money”, em seguida, vários porcos são mostrados numa marcha e a imagem é abruptamente cortada para vários homens entrando na fábrica. Ora, isso é fantástico. Os homens são comparados a porcos, sem vontade, sem esperança, sem saber para onde e porque estão indo.

A crítica contumaz do filme não é apenas sobre o modo de produção fordista, mas sim sobre todo o modo de vida da sociedade burguesa, que gera riqueza para poucos e miséria para muitos. Chaplin é fantástico em sua interpretação. Um filme extremamente crítico mas ao mesmo tempo leve e divertido.

A alienação pelo trabalho é evidente. Nosso anti-herói não consegue se adaptar à rotina na fábrica, com seus movimentos repetidos, mecânicos, sob a pressão do tempo, do capataz e do patrão. Isso sem falar nas trabalhadas do cais, da loja, do café. A linha de produção fordista, sua militarização, funcionários que se estranham e etc, são presença constante no filme. A máquina domina o homem, seu ritmo depende do ritmo da máquina. Tragicômico é a máquina inventada para alimentar o trabalhador enquanto ele trabalha, tudo para aumentar a produção, os lucros, a acumulação de capital, sem pensar na questão do homem. Para sorte dos operários, a máquina é um fracasso, ou seja, a crítica de que nem toda máquina é perfeita.

A repressão aos movimentos operários também é questão no filme. A polícia faz de tudo para manter a “ordem”, prendendo seus supostos líderes comunistas, entre eles Carlitos, bem como matando outros.

Interessante notar a facilidade que nosso anti-herói possui para ser preso. Sinceramente perdi as contas de quantas vezes o vi entrando na viatura da Polícia. Chaplin era um fora da lei. Mas de que lei? Da lei que considera criminoso/bandido aquele que não se adapta ao ritmo de vida que lhe impõem. Na loja um diálogo interessante com os “assaltantes” que o reconhecem da fábrica. “Não somos ladrões! Temos muita fome!”. Vale a reflexão.

A prisão parece agradar nosso herói (ou anti-herói? Papéis indefinidos). Em uma das vezes que é colocado em liberdade, o chefe de polícia diz: “Você é um homem livre!”, ora, mas livre para tão somente voltar à sua vida de miséria, fome, falta de moradia e tentativa de venda da força de trabalho. Não é a toa que Chaplin diz que quer ficar porque gosta do lugar.

O “American way of life” também é objeto de crítica no filme. Enquanto Chaplin e sua companheira descansam sob as sobras de uma árvore, observam um casal aparentemente “classe média”, família feliz, casa mobiliada, sem grande preocupações com a vida, mesa farta, enfim, tudo o que um simples trabalhador sonha. E qual é a decisão que Carlitos toma? Trabalhar para ter uma casa como esta. Oh! Doce ilusão, ainda mais se comparada à casa que a sua companheira encontra, um barraco de pau a pique, caindo aos pedaços e que nossos heróis (decidi. Vou chama-los apenas de heróis, afinal, para viver neste sistema desumano somos todos, heróis.) tem a fantasia de chamar “paraíso”.

Enfim, a crítica contumaz que Chaplin faz em seu filme não se resume ao mundo do trabalho, mas sim e principalmente ao estilo de vida que este mundo possibilita para a classe trabalhadora, sua constante sensação de estranhamento, falta de perspectiva e sonhos eternos de uma vida melhor.

5 Comentários:

Às 17/1/08 4:04 PM , Anonymous Arthurius Maximus disse...

Em minha opinião, um dos melhores filmes de Chaplin. Ao lado de O Grande Ditador, quando só ele percebeu o perigo que representava Hitler e fez o filme para alertar a América que se encantava com o louco.
A crítica é clara e crua. E, infelizmente, vemos o que ele retratava em 1936 "rolando" hoje de forma inequívoca e sendo inclusive idolatrada pela "civilização" atual. O massacre do homem pela máquina e pelo capital atingiu ares de obra de arte.

Ele era mesmo um visionário.

Belo post.

 
Às 17/1/08 10:33 PM , Blogger Pk Ninguém disse...

Quando vi esse filme pela primeira vez, eu era bem novo. Não gostava muito de filmes em preto e branco, além do mais desconhecia a filmografia de Chaplin. Adorei o filme, mesmo sem compreendê-lo muito, após revê-lo e compreendê-lo melhor, gostei ainda mais dele. A forma com que foi construído, a crítica explicita à indústria, é simplesmente um filme brilhante, talvez um dos melhores já feitos.

 
Às 17/1/08 11:21 PM , Blogger Dorian disse...

Muito boa sua análise sobre o filme, que de fato é uma obra-prima. Perde apenas um pouco a credibilidade da crítica ao mercado de trabalho, uma vez que o personagem principal era assumidamente um vagabundo.

Charles Chaplin para mim é como nosso Oscar Niemeyer: Um verdadeiro gênio que ficou milionário as custas do capitalismo (alguém pagando por suas idéias). Ou seja, comunista da boca-pra-fora!

 
Às 20/1/08 12:57 PM , Anonymous wilson rezende - wilsonrezende.zip.net disse...

Muito bom!

 
Às 22/1/08 4:17 PM , Anonymous Suellen Maldaner disse...

Interessnte a sua crítica, e no caso,levando em consideração a minha área...uma das grandes consequencias desse modo de produção capitalista recai sobre o urbanismo,porque há tempo ,a racionalidade industrial induz a cidade à lógica do lucro capitalista trasnformando-a em produto para consumo.Da mesma forma que a relação "tempo-espaço"(q tb interfere muito no urbanismo) já se reduziu a simples condição de mais uma mercadoria a ser consumida,pq são medidos,quantificados...e cada vez mais valiosos por se tornarem escassos...Tempo livre pra esses trabalhadores é cada vez menor,áreas de lazer nas cidades tb já quase não existem,afinal eles só têm tempo mesmo é pra trabalhar,trabalhar e trabalhar..td induz a pensar em dinheiro..é por isso que (como diz Niemeyer)em grandes metrópoles como São Paulo, ao invés de parques...controem bancos!
¬¬

 

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