09 outubro 2007

Os Jesuítas na América Espanhola:


Lendo e relendo diversas sinopses do Filme “A Missão”, produzido em 1986, com direção de Roland Joffé, estrelado por Robert De Niro e Jeremy Irons, ganhador da Palma de Ouro no festival de Cannes daquele ano, além do Oscar de melhor Fotografia e diversas outras indicações e premiações, tenho a impressão de que assisti ao filme errado, ou pelo menos de que a minha interpretação é bem diferente da oficial trazida na capa do filme.

Segundo a sinopse, o filme conta a história de Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), uma pessoa dedicada à captura e venda de Índios como escravos, que após um duelo com seu irmão pela mão de uma donzela, encontra a verdadeira paz em uma redução jesuíta. Tudo bem que o cinema precisa de personagens-chave para introduzir um debate, mas penso que a sinopse poderia ter sido mais contextualizada.

Entendo que o filme aborda várias questões sobre a colonização da América que podem ser exploradas em um interessante debate: a questão dos jesuítas, o poder/interesses da Igreja que estavam em jogo naquele período, as pressões dos colonos, a ganância por lucro e etc.

Embora o filme traga o nome de “A Missão”, trata-se na verdade de uma “redução” Jesuíta, a não ser que interpretemos a missão como sendo a do personagem de De Niro, que teria a missão de se redimir de seus pecados e etc... Enfim, os Jesuítas construíram diversas reduciones na América Latina, a do filme localiza-se onde hoje é a tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, onde os Índios eram catequizados (ou aculturados?), viviam em sistema de comunidade e tudo era distribuído de forma igual (como os primeiros e verdadeiros cristãos), além de se constituir em um porto seguro contra o tráfico de escravos índios.

Interessante para contextualizar o período, é que algumas reduções eram economicamente competitivas, isto é, havia uma grande produção de mercadorias que além de destinarem-se para o consumo próprio, eram vendidas tanto na colônia como na metrópole. O filme mostra o exemplo de bananais e produção de instrumentos musicais (aliás, os jesuítas adoram utilizar na música em suas catequizações), mas também podemos trazer o exemplo da forte produção de mulas.

Esta força econômica e moral das reduções jesuítas não poderia mesmo agradar a Portugal e Espanha, que pressionaram a Igreja a segurar as rédeas da Companhia de Jesus. O filme mesmo retrata a admiração de um bispo católico ao visitar algumas reduciones, bem como o seu martírio ao comunicar aos padres e índios que teriam de deixar o local para não serem dizimados. Os Jesuítas forma expulsos da América espanhola pela dinastia dos Bourbons.

Podemos também discutir a questão de Portugal e Espanha, reis católicos mais interessados nos lucros comerciais do que na real evangelização dos indígenas, além dos interesses dos colonos, preocupados com a escassa mão-de-obra para suas fazendas.

Como última crítica, temos a forma romanceada com que o filme aborda a questão, ficando escancarado quem é o mocinho e quem são os bandidos segundo a visão do autor/diretor e a interessante fala do bispo: “talvez os índios preferiam que o mar e os ventos nunca lhes tivessem trazido os europeus”. No entanto, a trilha sonora é belíssima e a fotografia idem o que proporcionam bons momentos diante da televisão.


Obs: Este Blog ficará inativo por alguns dias, pois estarei em Londrina participando do "III Simpósio Internacional de Geografia Agrária - Campesinato em Movimento".

2 Comentários:

Às 10/10/07 3:40 PM , Anonymous Márcio Pimenta disse...

Fala Cássio,

Tem desafio lá no blog para você. Abraços e bom seminário!

 
Às 27/10/07 10:09 AM , Blogger Atílio de Oliveira disse...

Assisti esse filme, me parece um filme que realmente pode ser utilizado para bons debates sobre a colonização da América e a condição indigena.

 

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