27 outubro 2007

MST e Educação:


Na edição em que tenta, como sempre, de forma ideológica pequeno-burguesa, desqualificar a vida e obra de Che Guevara, a Revista Veja dedica mais algumas páginas para “bater nos vermelhinhos” do MST, alegando que o movimento social vem “comprando vagas” nas universidades federais e seus alunos-assentados estariam entrando pela “porta dos fundos” das instituições de ensino superior. Ainda bem que existem pessoas que respondem a altura, pena que não com a mesma divulgação.

Mas a realidade é mais cruel do que os discursos da Veja. O analfabetismo reina nos assentamentos do Brasil e as crianças dos camponeses tem acesso apenas até a 4ª série do ensino fundamental, menos de 25% dos jovens têm até a 8ª série, ainda assim feitos em escolas urbanas, muito aquém de suas realidades. Quanto ao Ensino Superior, apenas 0,1% dos assentados conseguem chegar até lá, isso mesmo, 0,1% dos assentados no Brasil chegam à Universidade.

Atendendo às pressões de algumas entidades, entre elas o próprio MST, CPT e afins, o Governo FHC criou em 1998 o PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), com objetivo principal de fomentar a educação no campo. No entanto, o próprio Governo incluiu este programa no Ministério do Desenvolvimento Agrário e não no da Educação, além de desprovê-lo de grandes recursos e com isso possibilidade de mudar a realidade escolar no campo, logo, o problema estava resolvido, cria-se um órgão para “calar a boca” dos movimentos sociais, mas o deixa sem recursos para transformar a realidade e abrir possibilidades de progresso para esta gente, em perfeita harmonia com os interesses “dazelites”

Mas eis que os competentes e dedicados funcionários do PRONERA encontram uma solução surpreendente e eficiente para a questão. São firmados diversos convênios com Universidades Federais em todo o país para, primeiramente, levar alfabetização para os assentamentos. Até aqui tudo bem, alguns alunos e professores mais interessados no assunto dedicam um pouco do “tempo livre” para alfabetizar esta gente.

A coisa começa a mudar quando os assentados começam a ir para as Universidades Federais, até então, território exclusivo dos “filhinhos de papai” e de “boa educação”. Essa “gente sem cultura” não pode freqüentar os campos do saber, até porque, “assentado não precisa estudar, mas sim, apenas saber assinar o nome e bem capinar”.

Em todo o território nacional são criados diversos cursos de Ensino Superior em regime de alternância campo/escola, são mais de 40 Universidades conveniadas (talvez este seja um dos motivos de alguns governadores quererem acabar com a autonomia das Universidades) e cerca de 60.000 alunos. Uma verdadeira revolução na educação brasileira que leva a Universidade a cumprir a sua verdadeira função social.

Os primeiros cursos foram de pedagogia, letras, técnicos da área de saúde, meio ambiente e afins, que depois de formados voltaram às suas comunidades, transformando a realidade do local, até porque os “filhinhos de papai” não querem trabalhar com pobres. Mas o caldo começou a engrossar quando algumas Universidades tiveram a coragem de abrir cursos mais “nobres” aos assentados, tais como Agronomia e Direito. Ora, imaginem míseros assentados sabem otimizar a sua produção com seus próprios agrônomos, ou então, conseguindo melhores contratos devido aos conhecimentos jurídicos, sem falar nos cursos de Geografia e História, onde podem perceber que tudo é fruto de um processo histórico, que o direito de propriedade dos meios de produção foi uma criação de um grupo de pessoas para beneficiar a si próprios, a importância que a pequena propriedade tem no abastecimento de alimentos de primeira necessidade e etc... É, isso incomoda muita gente, até mesmo o Ministério Público entrou na Justiça contra as ações do PRONERA.
Obs: Texto feito com base na palestra de Clarice Aparecida dos Santos, representante do PRONERA no III Simpósio Internacional de Geografia Agrária - Campesinato em Movimento.

6 Comentários:

Às 27/10/07 9:23 PM , Blogger Mariana disse...

Meus parabéns!
Ótimo, ótimo ótimo e ótimo!

E é uma pena ver o que a "Veja" faz com as pobres pessoas que ainda a lêm..

beijos.

 
Às 29/10/07 8:44 AM , Blogger Celso Lungaretti disse...

Cássio, a Veja trocou o jornalismo pelo proselitismo direitista. Edição após edição comete absurdos.

Na desta semana, p. ex., dedica um espaço descomunal à queixa que uma ex-funcionária da Casa Vida apresentou na Polícia contra o padre Júlio, embora não tenha nenhuma consistência jurídica.

A mulher disse que, vários anos atrás, flagrou o pe. Júlio beijando um menino. Não há nome, não há queixa de ninguém, apenas algo que ela afirma ter visto. Do que serve esse depoimento, do ponto-de-vista legal? De absolutamente nada, se não aparecerem novos elementos.

Qualquer jornalista sabe que algo tão ínfimo só vale um registro de pé-de-página. A Veja lhe deu importância imensa, apenas porque está empenhada em desmoralizar os militantes dos direitos humanos. Ou seja, seus critérios não são jornalísticos, mas políticos.

Então, tudo que aparece nas páginas da Veja, deve ser colocado sob suspeita. De todo o universo da grande imprensa, é o veículo de menor credibilidade, atualmente.

 
Às 29/10/07 11:57 AM , Anonymous Marlonbrando Urbano disse...

Pior cego é aquele que não quer vê..
tanta corrupção e ainda insiste em defender..

 
Às 30/10/07 7:30 AM , Blogger DANIEL PEARL disse...

Cássio Augusto, parabéns pelo belo trabalho. A internet tem força para mudar os conceitos e quebrar os paradígmas.

Estamos juntos! Você analisando de forma clara e o blog DESABAFO sendo uma revista de múltipla escolha.

Um forte abraço,
DANIEL - editor do blog DESABAFO.

Sempre visito.

 
Às 30/10/07 11:14 AM , Blogger Zanfa disse...

Bacana teu texto, bom saber sobre o assunto.

Realmente a universidade tem que ser um lugares para todos, não só quem tem dinheiro e condições de melhor preparação pro vestibular.

Parabéns pelo blog.

 
Às 30/10/07 11:03 PM , Blogger Dorian disse...

"que o direito de propriedade dos meios de produção foi uma criação de um grupo de pessoas para beneficiar a si próprios"

Esse tipo de sentença que é ensinado aos militantes já é a prova do quanto esses "cursos" direcionados são nocivos.
Sou de acordo que todos tenham o direito de estudar, só assim o país pode se desenvolver, mas o país e a sociedade, principalmente, só se desenvolvem de verdade quando há respeito a propriedade privada.

 

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