14 outubro 2006

Resenha: O mestre engraxate:

“A principal virtude do Intelectual é a rebeldia crítica”
Florestan Fernandes

Poucas são as biografias que realmente vale a pena você ler, uma vez que os fatos da vida do personagem parecem mais de ficção, ou então o fulano não merecia tamanha porcaria produzida.

Isso não acontece com “Florestan Fernandes: vida e obra”, um livro maravilhoso que retrata com uma riqueza de detalhes impressionantes a dura realidade do maior sociólogo brasileiro, de engraxate, professor e um dos mais atuantes deputados federais pelo Partido dos Trabalhadores.

O autor, Laurez Cerqueira, um ex-assessor de gabinete nos tempos de Brasília que teve uma trajetória de vida parecida com a do mestre, por isso a sensibilidade e riqueza do texto.

Florestan teve que aprender cedo a ser gente. Nascido no ano de 1920, filho de mãe solteira, já nos primeiros anos de vida teve uma grande lição, sua mãe, empregada doméstica em casa de família abastada de São Paulo, ouviu de sua patroa/madrinha a indecorosa proposta de dar o pequeno Florestan. Dona Maria não pensou duas vezes, pegou seu filho e sumiu para bem longe.

A situação financeira da família não era fácil, e ainda criança, Florestan aceitava todo tipo de serviço por uns poucos trocados para ajudar em casa. Limpou as roupas dos fregueses de uma barbearia, ajudava as granfinas com as sacolas da feira. Chegou a passar fome, foi humilhado pedindo comida, mas nunca perdeu o brio.

A rua foi sua melhor escola, mas com certeza, seu maior desafio foi na época de engraxate, com apenas onze anos de idade, tinha que lutar pelo seu espaço na calçada e por fregueses, chegou até as vias de fato com outros meninos.

Sua mãe insistia para que Florestan aprendesse uma profissão, foi ser auxiliar de alfaiate. Como o serviço era longe de sua casa, precisava dormir na alfaiataria, até que uma noite, Dona Maria o foi visitar e viu as condições em que o menino ficava, uma quase escravidão.

Florestan foi trabalhar em bares e restaurantes, nos intervalos e horas de menor movimento adorava ler, e lia muito, e sobre tudo, o que lê permitia, entre uma atendida e outra, sempre fazer comentários pertinentes nos assuntos debatidos entre os clientes. Passou a ganhar muitos livros, e seu amigos, pois não era mais clientes, vendo o potencial daquele jovem o encorajaram a terminar os estudos.

Florestan queria ser químico, mas como o curso era ministrado em período integral, foi fazer Ciências Sociais, sorte a nossa que ganhamos um Mestre.

Os tempos de estudos na universidade foram difíceis, os professores eram em sua maioria europeus e as aulas ministradas em suas línguas de origem. Lá foi nosso guerreiro aprender de forma autodidata o francês. Trabalhava durante o dia como representante comercial, e entre um cliente e outro, Florestan aproveita para ler.

Teve aulas com grande Roger Bastide, ficou amigo de Antonio Cândido, que inclusive recheia o livro com diversas passagens desta época. Quando os professores europeus foram embora, Florestan fez concurso e ocupou seu lugar, começava ali a vida acadêmica de Florestan.

Exigia o máximo de seus alunos, e dava o exemplo dedicando-se integralmente aos estudos da sociedade, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi seu aluno.

Sempre atuou em grupos de esquerda, clandestinos à época, mas devido ao pouco tempo que dispunha, pois a universidade o exigia muito, Florestan largou a militância pois entendia que poderia dar uma maior contribuição na Academia.

Florestan publicava diversos artigos nos jornais, o que lhe rendeu o respeito e a admiração de pessoas com pensamentos contrários aos seus, como Júlio Mesquita e Gilberto Freyre.

Em 1949 publica “A Organização Social dos Tupinambá”, o que foi uma revolução na Sociologia da época, Florestan conseguiu descrever uma sociedade extinta a muitos séculos. Para Claude Leví-Strauss, uma real revolução na Antropologia.

Diversos estudos sobre as contradições sociais ainda foram feitos por Florestan e sua equipe, mas veio o Golpe Militar, e o exílio. O livro traz também diversas passagens emocionantes do período, que revelam o Florestan humano e de atos coerentes com suas palavras.

Veio a redemocratização e o convite para ingressar no Partido dos Trabalhadores, e Florestan se viu maravilhado com aquela oportunidade inédita de ajudar a construir um partido nascido da base, dos “de baixo” como gostava de dizer.

O começo na Câmara foi difícil, mas sua inteligência o ajudou a se destacar na Constituinte, a defesa dos “de baixo” lhe rendeu o respeito de todos os demais parlamentares. Era chamado pelos colegas de “Professor”. Seus discursos faziam silenciar por um instante o insistente burburinho do plenário. Todos vinham consultar-se com o Mestre. Óbvio que Florestan não ficou satisfeito com o resultado da Constituição, a considerou burguesa demais, mas o que lhe dava consolo, é que alguns avanços foram conseguidos pela pequena bancada da esquerda.

Florestan era um defensor do Brasil, amava o país e lutava sempre por mudança sociais, acreditava na nossa ciência, que infelizmente o traiu. Vítima de um erro médico no final dos anos 70, quando durante uma transfusão de sangue contraiu Hepatite C.

A vida de intensos debates na câmara debilitou ainda mais a já frágil saúde de Florestan, numa madrugada fria, teve que ir ao Hospital, seu filho, acordado pela mãe foi atrás do Pai e o encontrou no Hospital do Servidor Público, que a época estava passando por uma séria crise financeira e de equipamentos, detalhe, Florestan estava de fila, do lado de fora do Hospital, indagado pelo filho do porque não tinha ido a um Hospital melhor, o Mestre respondeu que como servidor público, aquele era seu hospital, e que estava na fila porque tinha fila.

Florestan morreu em 10 de agosto de 1995, vítima de outro erro médico, desta vez no Hospital das Clínicas, onde uma enfermeira foi displicente na colocação do soro e acabou entrando ar nas veias de Florestan.

Fica-nos o exemplo deste brasileiro, que tinha tudo para ser mais um nos filões da pobreza e do crime, mas enveredou por um caminho diferente, sua origem humilde o gabaritou para ser o maior sociólogo do Brasil, e um dos cinco mais do Mundo. Este texto é um pouco da sua vida, vale a pena conferir ainda a sua obra e seu pensamento socialista, bem retratados no livro.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CERQUEIRA, Laurez. Florestan Fernandes: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2004.

3 Comentários:

Às 16/10/06 3:39 PM , Anonymous Victo disse...

Resumindo: o homem foi um exemplo de vida. E pensar que existem tantos outros exemplos de vida neste país, né? Pessoas que venceram contra tudo e todos e hoje estão aí, felizes.

 
Às 16/10/06 10:55 PM , Anonymous BELA disse...

Ola Cassio!!
poxa vida..vc tb já leu algo sobre florestan??? que legal...
nunca havia lido sobre sua biografia...Poxa, que pena que perdemos um ser humano como este.. E saber que existem tantos "merdas" por ai, que não morrem nunmca!!! affff....
beijinhos...e sempre mande contato..
muito legal o seu blog PARABENS... beijinhoss BELA =*

 
Às 16/10/06 11:37 PM , Blogger Márcio Pimenta disse...

Caramba! Sempre quis saber mais sobre ele e você o fez de forma bem peculiar. Parabéns!

P.S.: Seu blog já merece um layout mais personalizado. :)

 

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