06 outubro 2006

Resenha: A Díade Sobrevive

“Enquanto existirem conflitos, a visão dicotômica não poderá desaparecer, mesmo se, com o passar do tempo e a modificação das circunstâncias, a antítese até então principal vier a se tornar secundária e vice-versa”[1]

Mesmo após as profundas transformações operadas na sociedade mundial, com o fim da guerra fria e aparente derrota da Esquerda Comunista e vitória da Direita Capitalista, o mundo político ainda é dividido em Direita e Esquerda, apesar de muitos declararem esta díade morta. Mas porque sobrevive e o que é ser Esquerda ou Direita após este acontecimento?

É justamente a busca de tal resposta que motivou o Filósofo italiano Norberto Bobbio a escrever “Direita e Esquerda, razões e significados de uma distinção política”. Publicado no ano de 1994, no calor dos debates político-eleitorais da Itália o livro obteve grande sucesso editorial, espantando até mesmo seu autor.

A presente distinção é contestada por vários autores que argumentam: a crise das ideologias do passado; o novo e complexo sistema político da proporcionalidade que multiplica o número de agentes partidários, como no Brasil; a sociedade em contínua transformação, que apresenta aos políticos, novos e surpreendentes problemas com o nascimento de movimentos reivindicatórios que não entram no tradicional esquema da díade. Seria o Partido Verde de Direita ou de Esquerda? E as reivindicações de grupos Homossexuais?

O que seria da Direita sem a Esquerda? O que seria do Amor sem o Ódio? O que seria do São Paulo sem o Corinthians? Negar a existência de um deles é justamente admitir a morte do outro. É por isso que a díade sobrevive. A razão principal para os que sustentam o fim da mesma é de que os dois lados já não conseguem apresentar novas fórmulas para os problemas da sociedade, ou seja, tanto a Direita como a Esquerda têm as mesmas propostas de Governo.

Outro argumento daqueles que tentam ver sepultada a díade, é a simultaneidade de posições, por exemplo, o extremismo de Direita e de Esquerda, tem em comum a antidemocracia, seja pelo Nazi-fascismo como pelo Comunismo, o que também é rechaçada por Bobbio.

São tantos os argumentos no sentido de eliminar a distinção, então porque ela ainda sobrevive diuturnamente na linguagem política, televisiva e dos cidadãos? Os partidos políticos continuam a ser colocados como que em um arco, que vai da Direita para a Esquerda, ou vice-versa, uns mais ao estremo dos lados, outros mais ao centro, e por aí vai. Até mesmo no interior de diversos partidos existem correntes à Direita e a Esquerda, que o diga o PT.

Segundo Bobbio, Direita e Esquerda possuem um significado descritivo, pois não se permite que atribuam a mesma palavra dois significados e outro avaliativo, exatamente porque tais termos referem-se a uma antítese, onde a conotação positiva de um depende necessariamente da conotação negativa de outro, ou seja, o ponto de vista depende do ponto de onde é visto.

Uma vez que a díade sobrevive, necessário se faz a busca de um critério de distinção, questão sobre a qual Bobbio é insuperável, contestando e comentando a visão de diversos pensadores, como Laponce, Cofrancesco, Elisabeta Galeotti e Marco Ravelli. Igualdade e Liberdade, assim estariam divididos os ideais de Esquerda e Direita, no entender de Bobbio.

Para uma Esquerda igualitária existe uma Direita inigualitária. O primeiro parte da idéia de que as desigualdades são sociais, e portanto elimináveis, já para o segundo, tais são naturais, e portanto inelimináveis. Conclui Bobbio:

“pretendo simplesmente reafirmar minha tese de que o elemento que melhor caracteriza as doutrinas e os movimentos que se chamam de ‘esquerda’, e como tais têm sido reconhecidos, é o igualitarismo, desde que entendido, repito, não como a utopia de uma sociedade em que todos são iguais em tudo, mas como tendência, de um lado, a exaltar mais o que faz os homens iguais do que o que os faz desiguais, e de outro, em termos práticos, a favorecer as políticas que objetivam tornar mais iguais os desiguais”.
[2]

Outrossim, para uma Direita que pregue a Liberdade, existe uma Esquerda que clame pela Autoridade. E Bobbio conceitua:

“a liberdade privada dos ricos é muito mais ampla do que a liberdade privada dos pobres. A perda de liberdade golpeia naturalmente mais o rico do que o pobre, para quem a escolha do meio de transporte, o tipo de escola, o modo de se vestir, está habitualmente impedida, não por uma imposição pública, mas pela situação econômica interna à esfera privada. (...) o rico perde uma liberdade usufruída efetivamente, o pobre perde um liberdade em potencial”.
[3]

Portanto, nosso Autor entende que enquanto a Direita prega a Liberdade individual, e por conseqüência a manutenção do status quo vigente, a busca da redução das desigualdades é o principal combustível da Esquerda revolucionária, pregando a Igualdade. E conclui: “a esquerda não só não completou seu caminho como mal o começou”.
[4]

Em tempos de eleição presidencial no Brasil, obrigatória se faz a leitura deste clássico de Bobbio, afinal, alguns candidatos se preocupam mais com o social, com o povo e com a igualdade, enquanto outros propõem a não intervenção do Estado na economia pregando o liberalismo econômico. Enfim, candidatos de Esquerda e de Direita, comprovando que a díade está mais viva do que nunca, basta a nós, leitores e eleitores escolhermos o condutor da nação pelos próximos quatro anos, se queremos a volta da Direita que sempre nos governou, a continuação da esquerda moderada ou se pagamos para ver a entrada de uma suposta extrema-esquerda.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

[1] BOBBIO, Norberto, op.cit., p.69.
[2] BOBBIO, Norberto, op.cit., p.110.
[3] BOBBIO, Norberto, op.cit., p.113/114.
[4] BOBBIO, Norberto, op.cit., p.124.

Obs: Trabalho de Faculdade. Sei que o texto é grande, então quem ler poderia deixar um comentário?

4 Comentários:

Às 6/10/06 3:39 PM , Anonymous Eder Bruno disse...

Cara, muito legal seu blog, se me permite vou linká-lo!

em relação ao texto, é até ridiculo a complexidade com que são tratados as questões dessas díades em relação a politica, assim como no futebol, a politica perdeu a identidade a referencia, é simplesmente um fator a parte do verdadeiro ideal, ou seja, hoje até os ideais são descartáveis. Não é uma opinião radical e sim desilusória!

 
Às 7/10/06 10:41 PM , Anonymous catatau disse...

Oi Cassio,

Creio que uma boa via para tua resenha possa ser também comparar as considerações de Bobbio com as definições históricas de 'direita' e 'esquerda'. Tambem poderia considerar o quanto certas posições, no Brasil, mesclam atitudes de 'direita' e 'esquerda'.

Sobre Foucault, tenho algumas leituras. O q, mais especificamente, vc gostaria de saber?

 
Às 8/10/06 12:50 AM , Blogger Elis disse...

Oi!
Vi um comentário seu la no orkut, numa comunidade do Blogger... Vi que visitou meu blog tbm.
Gostei muito do seu blog. Aliás, vou colocar nos favoritos do meu, se vc permitir, é claro...
Muito bom o texto.
Enfim, a direita e a esquerda sempre vão existir, pois se terá sempre a diferença de ideologia. Enquanto uns defendem a liberdade individual, outros defendem a igualdade social. Nunca um governo agradará a todos.
E acredito ainda que um fator que gera essa diferença tão grande na sociedade é que a maioria das pessoas, antes de escolher um candidato (ou um partido), pensam primeiro em si mesmos ao invés de pensar no coletivo. Ou seja, pode ser bom pra maioria, mas se não favorecer à ela, é contra. A ideologia (se é que se pode chamar assim nesse caso) vem depois do individualismo.

Bjs

 
Às 20/10/06 12:35 AM , Anonymous Vernet disse...

Antônimo de amor é egoísmo, e não ódio.

 

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