21 junho 2006

MST e Política:

Como todo movimento social de massa que busque a alteração das estruturas arcaicas de uma sociedade, o MST é execrado pela burguesia dominante e rotulado.

Devido à inclinação socialista do movimento, suas referências aos textos de Mao, Fidel, Marx e Engels, a admiração por Che, Zapata e Sandino, o Movimento é hoje visto com olhos de desconfiança por aqueles que têm medo de que a sociedade mude, por isso é hoje o MST criticado e nas palavras de José Carlos Garcia:

“Em regra, o MST tende a ser visto ora como um grupo de desordeiros e baderneiros, ora como um grupo subversivo organizado para a derrubada da democracia, ora ainda como defensor de idéias anacrônicas vinculadas a posições ideológicas historicamente superadas, composto por lideranças oportunistas e militantes de base ingênuos que defendem uma boa causa, mas por meios inaceitáveis”.[1]

Quanto a essas críticas ao movimento, nas sábias palavras de José Garcia:

“As ‘denúncias’ relativas à politização de movimentos sociais são uma tática usual neste país marcado por um baixo índice de participação política, reforçando um certo preconceito popular contra a política. Essa tática de desmoralização articula-se com a cultura tecnocrática amplamente desenvolvida pela ditadura militar segundo a qual a política não deve ser vista como coisa pública, e sim como questão de especialistas oficiais que dominam todas as informações e técnicas pertinentes. A ação coletiva, nesse contexto, é vista como ‘algo nocivo e recriminável, isto é, como subversão, como desordem, como terrorismo. Um discurso que valoriza o isolamento, a individualização, a privatização e que ajuda a apagar a memória das experiências de luta e desfigurar a consciência dos direitos”.[2]

Como visto acima, essas críticas sobre a politização do MST vêm precisamente dos setores dominantes do país, uma vez que é impossível disfarçar a natureza política da estrutura fundiária do Brasil:

“tamanha concentração de propriedade engendra vigorosas relações de poder que projetam suas teias até as mais altas esferas de Brasília e da Avenida Paulista. Os ruralistas compõem uma das maiores e mais ativas bancadas corporativas do Congresso Nacional, com deputados e senadores em praticamente todos os partidos políticos, possivelmente com exceção dos da esquerda”.[3]

O sucesso alcançado pelo MST até hoje, em colocar em debate a nível nacional a questão agrária e os demais problemas sociais que atravessa o Brasil, deu-se exatamente:

“no fato de que reconhece a natureza política do problema que dispôs a enfrentar, jamais o fazendo isoladamente, sem conexão com os trabalhadores do campo ou com outros setores da sociedade civil, mas parece ser precisamente esta a sua característica menos aceitável pelo discurso dominante. Há, entretanto, inúmeras elaborações contemporâneas acerca da democracia e do direito constitucional que permitem reconhecer o importante papel desempenhado por este movimento social em nosso país hoje”.[4]

Quanto a este componente político, João Pedro Stédile, em recente entrevista assim se expressa: “evidente que muita gente, tanto pela direita quanto pela esquerda, não consegue fazer uma interpretação correta desse caráter político do movimento. Simplificam com facilidade o componente político como se fosse apenas uma vocação partidária. Em vários momentos da nossa história houve quem afirmasse que o MST iria se tornar um partido político. Nunca esteve no horizonte do MST se transformar em partido político. Mas também nunca abrimos mão de participar da vida política do país”.[5]


[1] José Carlos Garcia apud. STROZAKE, Juvelino José. A questão agrária e a justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 149.
[2] José Carlos Garcia apud. STROZAKE, Juvelino José, op.cit., p. 149.
[3] José Carlos Garcia apud. STROZAKE, Juvelino José, op.cit., p. 150.
[4] José Carlos Garcia apud. STROZAKE, Juvelino José, op.cit., p.151.
[5] STÉDILE, João Pedro e FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava gente. A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 36.

3 Comentários:

Às 21/6/06 2:59 PM , Anonymous Prof Roberto disse...

Realmente, os movimentos sociais existem pq o poder massacra a minoria; aí a importância deles como porta voz dos excluídos; mesmo no Gov Lula, não se deixou de se fazer suas reivindicações, o MST busca levar a luta dessa classe sofrida como todos os severinos existentes em nosso país,segundo João Cabral de Melo Neto

 
Às 22/6/06 11:01 AM , Blogger Cássio Augusto disse...

Ué... tem um comentário mas aparece como zero ná página... af... hehe

 
Às 22/7/06 9:38 PM , Anonymous Marluce disse...

Concordo que os M.S. d eum modo geral, são frutos de um sistema injusto e cruel,que nos deixa como única alternativa a luta de classes. Contudo, precisamos ao mesmo tempo, fazer uma leitura da realidade e compreender que, muitos dos M.S. hoje, são patrocinados por pessoas de interesses duvidosos. O atual Governo com certeza fez algo, mas ainda esperamos muito mais.
A luta eh um processo, que continuamente trará o resultado esperado, mas é claro com muita politização.

 

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